Onde Você Se Escondeu?

— Onde você se escondeu? — sussurrei para o vazio da cozinha, olhando para o espaço onde, até ontem, ficava a caixinha de linhas coloridas que herdei da minha mãe. Meus dedos tremiam, mas não era só de raiva ou cansaço. Era medo. Medo de estar perdendo o controle da minha própria vida.

Primeiro sumiram as luvas de crochê que fiz para a neta, depois as chaves do portão, o velho cachecol do meu marido, falecido há cinco anos. No começo, tentei rir de mim mesma. “Coisa de velha”, pensei. Mas quando a sexta coisa desapareceu — a caixinha de linhas, sempre ali no canto do armário —, não consegui mais fingir que era só distração.

Sentei na cadeira da cozinha, sentindo o peso dos anos nas costas e nas pernas. O relógio da parede marcava 17h30. O cheiro de café requentado pairava no ar. Lá fora, o barulho dos meninos jogando bola na rua contrastava com o silêncio pesado dentro de casa.

— Dona Halina, tá tudo bem? — perguntou a Rosângela, minha vizinha, batendo à porta dos fundos.

— Não sei, Rosângela… Acho que tô ficando doida. As coisas tão sumindo aqui em casa.

Ela entrou, olhou ao redor e deu aquele sorriso amarelo de quem não sabe se consola ou se preocupa.

— Ah, dona Halina, deve ser cansaço. A senhora vive sozinha, né? Essas coisas acontecem.

Mas eu sabia que não era só isso. Não podia ser.

Naquela noite, liguei para minha filha, Luciana. Ela atendeu com a voz apressada:

— Mãe, tô no meio de uma reunião. Pode ser rápido?

— Lu, você não viu meu porta-linhas quando veio aqui semana passada?

— Porta-linhas? Mãe, eu nem mexi nisso. Deve estar aí em algum lugar.

A ligação terminou com um suspiro impaciente dela e um nó na minha garganta. Senti uma raiva surda — não dela, mas do tempo que nos afastou tanto. Lembrei dos domingos cheios de risadas e cheiro de bolo de fubá. Agora, tudo era silêncio e saudade.

Na manhã seguinte, acordei com barulho na sala. Meu neto Gabriel mexia no celular sentado no sofá.

— Oi vó! Passei aqui pra pegar o carregador que deixei semana passada.

— Gabriel, você viu meu porta-linhas?

Ele nem levantou os olhos:

— Não vi nada não, vó. Deve ter sumido igual as outras coisas que você vive perdendo.

A indiferença dele me cortou mais do que qualquer objeto desaparecido. Senti vontade de gritar: “Eu não estou louca!” Mas engoli as palavras e fui lavar a louça.

Os dias passaram e outros objetos sumiram: uma colher de pau, um brinco antigo, até um retrato do casamento que ficava na estante. Comecei a desconfiar de tudo e todos. Será que alguém estava entrando em casa? Ou será que minha cabeça estava mesmo me traindo?

Resolvi instalar uma câmera velha que Gabriel deixou aqui depois de um trabalho da faculdade. Passei a noite em claro assistindo à tela do celular, esperando flagrar algum movimento estranho. Nada aconteceu.

No domingo seguinte, Luciana veio me visitar. Trouxe pão doce e um olhar cansado.

— Mãe, você precisa sair mais de casa. Ficar sozinha assim não faz bem pra ninguém.

— Você acha que eu tô inventando coisa? Que tô ficando maluca?

Ela hesitou antes de responder:

— Não é isso… Mas você anda esquecendo muita coisa ultimamente. Lembra do dia em que esqueceu o fogão ligado?

Senti uma onda de vergonha e raiva. Queria gritar que não era só esquecimento. Que tinha algo errado acontecendo ali.

Naquela noite, chorei baixinho no quarto escuro. Lembrei do meu marido, Antônio, sempre tão paciente comigo. “Halina, você é forte”, ele dizia quando eu duvidava de mim mesma.

Na segunda-feira, Rosângela apareceu novamente.

— Dona Halina, ouvi uns barulhos estranhos ontem à noite vindo daqui…

Meu coração disparou. Será que alguém estava mesmo entrando em casa?

Decidi pedir ajuda ao vizinho Seu Jorge para trocar a fechadura da porta dos fundos. Ele veio com suas ferramentas e um sorriso gentil:

— Fica tranquila, dona Halina. Agora ninguém entra aqui sem a senhora saber.

Mas mesmo assim os sumiços continuaram.

Certa tarde, enquanto procurava a colher de pau perdida atrás do fogão, encontrei um envelope amarelado caído entre os azulejos e a parede. Era uma carta antiga da minha mãe para mim, escrita quando ela ainda morava no interior de Minas Gerais:

“Filha querida,
Se um dia sentir que está perdendo as coisas ou a si mesma, lembre-se: às vezes o que some é só o que precisa ser encontrado dentro da gente.”

Li aquelas palavras dezenas de vezes até as lágrimas molharem o papel. Talvez eu estivesse mesmo perdendo mais do que objetos: estava perdendo pedaços da minha história, da minha identidade.

Na semana seguinte, Luciana voltou com Gabriel para um almoço em família. O clima estava tenso; dava pra sentir no ar.

— Mãe — ela começou — precisamos conversar sobre sua saúde. Eu e Gabriel estamos preocupados.

— Preocupados ou cansados? — rebati com amargura.

Gabriel largou o celular pela primeira vez:

— Vó… A gente só quer ajudar.

— Então me escutem! Eu não tô inventando! Tem algo errado acontecendo aqui!

O silêncio caiu pesado sobre nós três. Luciana segurou minha mão com força:

— Vamos marcar uma consulta com a doutora Renata? Só pra ter certeza de que tá tudo bem…

Aceitei relutante. Na consulta, contei tudo para a médica: os sumiços, o medo, a solidão.

Dra. Renata foi delicada:

— Dona Halina, pode ser só estresse ou início de depressão por causa do isolamento… Mas vamos fazer alguns exames pra descartar qualquer problema neurológico.

Saí do consultório sentindo-me ainda mais perdida. Será que era isso? Será que eu estava mesmo adoecendo?

Na volta pra casa, reparei numa coisa estranha: um dos meninos da rua brincava com uma das minhas luvas de crochê! Fui até ele:

— Onde você achou essa luva?

O menino sorriu sem graça:

— Achei no lixo aqui da esquina…

Meu coração apertou. Fui até o portão dos fundos e percebi: alguém estava mexendo no meu lixo! Talvez fosse algum catador procurando recicláveis e levando junto meus objetos sem querer…

Contei para Luciana e Gabriel naquela noite:

— Acho que descobri o mistério dos sumiços…

Eles riram aliviados e me abraçaram forte pela primeira vez em muito tempo.

Mas dentro de mim ficou uma pergunta: quantas coisas ainda vou perder antes de alguém realmente me ouvir? Será que estou mesmo desaparecendo aos poucos — não só para mim mesma, mas para quem eu amo?