Quatro Anos Atrás, Naquela Esquina

— Anda logo, Mariana! Já são quase onze horas, minha mãe vai surtar se eu não chegar antes da meia-noite! — sussurrei, apertando a mão dela enquanto atravessávamos a rua escura do bairro do Centro, em Lublinópolis.

Ela riu, aquele riso leve que sempre me acalmava. — Relaxa, Lucas. A gente só vai comer um pastel com a Camila e volta rapidinho. Não precisa ficar tão tenso.

Mas eu estava tenso. Não era só o medo da bronca da minha mãe. Era o silêncio estranho daquela noite, o jeito como os postes piscavam, como se a qualquer momento tudo pudesse mergulhar numa escuridão total. Mariana não percebia. Ela era dessas pessoas que acreditam que nada de ruim pode acontecer quando se está ao lado de quem se ama.

A gente estudava juntos na Federal, ela em Psicologia, eu em História. Quatro anos atrás, éramos só dois jovens sonhando alto, achando que o mundo era nosso. Lembro até hoje do cheiro de chuva no asfalto, do barulho dos nossos passos apressados.

— Camila disse que já está esperando — Mariana falou, olhando o celular. — Ela mora só ali na esquina, não tem erro.

Quando viramos à esquerda, tudo aconteceu rápido demais. Dois caras surgiram do nada, um deles com uma faca brilhando sob a luz fraca do poste. Meu coração disparou. Senti o suor frio escorrendo pelas costas.

— Passa o celular! — gritou o mais alto, a voz rouca e desesperada.

Mariana congelou. Eu tentei puxá-la para trás, mas ela ficou paralisada. O outro cara me empurrou contra o muro.

— Não faz besteira, mano! — ele ameaçou, apontando a faca para mim.

Eu tremia tanto que mal conseguia falar. — Calma… calma… a gente vai dar tudo…

Mariana entregou o celular dela com as mãos trêmulas. Eu fiz o mesmo. Eles pegaram também minha carteira e a bolsa dela. Antes de irem embora, o mais baixo ainda olhou nos meus olhos e disse:

— Se contar pra polícia, a gente volta.

E sumiram na noite.

Ficamos ali parados por alguns segundos, sem saber o que fazer. Mariana começou a chorar baixinho. Eu tentei abraçá-la, mas ela se afastou.

— Por que você não fez nada? — ela sussurrou, a voz embargada.

Eu não soube responder. Não tinha resposta. Só conseguia pensar no medo, na vergonha de não ter conseguido protegê-la.

A partir daquela noite, tudo mudou entre nós. Mariana ficou diferente: mais fechada, mais distante. Eu também mudei. Passei a evitar sair à noite, comecei a ter pesadelos quase todas as madrugadas. Minha mãe percebeu logo.

— O que aconteceu com você, filho? — ela perguntou uma manhã, enquanto eu mexia no café sem vontade.

— Nada, mãe… Só tô cansado — menti.

Mas ela sabia que era mais do que cansaço. Meu pai tentou conversar comigo também:

— Lucas, homem tem que ser forte nessas horas. Não pode deixar bandido te dominar assim!

Essas palavras me machucaram mais do que qualquer coisa. Eu já me sentia fraco demais.

Na faculdade, comecei a faltar às aulas. Meus amigos notaram meu sumiço.

— E aí, sumido? Vai perder a prova de História do Brasil? — brincou Rafael um dia.

Eu só dei de ombros. Não tinha vontade de nada.

Mariana terminou comigo dois meses depois. Disse que precisava de um tempo para se reencontrar, mas eu sabia que ela nunca mais seria a mesma comigo depois daquela noite.

Fiquei sozinho com meus medos e minha culpa. Passei noites acordado pensando no que poderia ter feito diferente. Será que devia ter reagido? Será que devia ter gritado por socorro?

O tempo foi passando e as feridas não cicatrizavam. Minha mãe insistiu para eu procurar ajuda psicológica, mas meu pai dizia que isso era coisa de gente fraca.

— Homem resolve seus problemas sozinho! — ele repetia.

Mas eu não conseguia resolver nada sozinho. Sentia vergonha até de olhar no espelho.

Foi só quando minha irmã mais nova entrou no meu quarto uma noite e me encontrou chorando baixinho que tudo começou a mudar.

— Lucas… você não precisa passar por isso sozinho — ela disse, sentando ao meu lado na cama.

Desabei ali mesmo. Contei tudo pra ela: o assalto, o medo, a culpa por não ter protegido Mariana, o vazio depois do fim do namoro.

Ela me abraçou forte e disse:

— Você fez o que pôde pra sobreviver. Isso já é ser corajoso.

Aquelas palavras ficaram ecoando na minha cabeça por semanas. Foi então que decidi procurar ajuda profissional na universidade. Comecei a fazer terapia com a professora Ana Paula, psicóloga do campus.

Na primeira sessão, chorei feito criança. Contei tudo: o assalto, o fim do namoro, a pressão da família pra ser “forte”.

Ana Paula me olhou com carinho e disse:

— Lucas, sentir medo não te faz menos homem. O trauma é real e precisa ser cuidado como qualquer ferida física.

Aos poucos fui melhorando. Voltei a frequentar as aulas, retomei contato com alguns amigos e até consegui conversar com Mariana meses depois. Ela também estava fazendo terapia e conseguimos nos perdoar mutuamente pelo que aconteceu naquela noite.

Hoje, quatro anos depois daquele assalto na esquina da rua da Camila, ainda carrego cicatrizes invisíveis. Mas aprendi a lidar melhor com elas. Entendi que não existe coragem sem medo e que pedir ajuda é um ato de força, não de fraqueza.

Às vezes ainda acordo assustado no meio da noite quando ouço algum barulho estranho na rua. Mas agora sei respirar fundo e lembrar: sobrevivi.

E você? Já sentiu medo de andar na sua própria cidade? Como lida com esse sentimento todos os dias?