O Último Trem de Mariana

— Você vai ou não vai, Mariana? — a voz do meu pai ecoou pelo corredor da casa, misturada ao cheiro forte de café requentado e ao barulho da chuva batendo no telhado de zinco. Eu estava parada na porta do meu quarto, mochila nas costas, tentando decidir se descia ou não as escadas. O relógio marcava 6h45. O trem das 7h10 era minha única chance de chegar a tempo na entrevista de emprego em Belo Horizonte.

Minha mãe apareceu atrás dele, enxugando as mãos no avental florido. — Filha, não faz essa cara. Vai dar tudo certo. — Ela tentou sorrir, mas eu sabia que ela também estava nervosa. Desde que perdi o emprego na padaria do bairro, há três meses, a tensão em casa era quase palpável. Meu irmão mais novo, Lucas, fingia que não via nada, mas eu sabia que ele sentia o peso do silêncio durante o jantar.

Desci as escadas devagar, sentindo cada degrau ranger sob meus pés. Meu pai me olhou com aquele olhar duro de sempre, como se esperasse que eu falhasse. — Não esquece os documentos — disse ele, seco.

Peguei a sombrinha azul da minha mãe e saí correndo para a rua. A chuva engrossava, e cada passo parecia mais pesado que o anterior. Cheguei à estação Poente com o coração disparado e os tênis encharcados. O trem ainda não tinha chegado. Sentei num banco de madeira, tentando controlar a respiração. Ao meu lado, uma senhora lia um folheto da igreja; um rapaz mexia no celular, alheio ao mundo.

Olhei para o relógio: 7h05. Cinco minutos. Cinco minutos para decidir se eu realmente queria aquela vida nova em Belo Horizonte ou se ia continuar presa à rotina sufocante de uma cidade pequena do interior de Minas Gerais.

Foi aí que senti o cheiro do cigarro vindo do outro lado da plataforma. Um homem magro, de barba por fazer, tragava com força enquanto olhava para o vazio. Eu não fumava desde os 19 anos, quando prometi à minha mãe que largaria o vício depois que ela me pegou chorando no banheiro. Mas naquele momento, tudo parecia tão distante e sem sentido.

Levantei e caminhei até ele. — Me dá um cigarro? — perguntei, sem pensar.

Ele me olhou surpreso, mas estendeu o maço. Acendi com mãos trêmulas e senti a fumaça invadir meus pulmões como um velho amigo indesejado. O trem apitou ao longe.

— Vai pra onde? — ele perguntou.

— Não sei — respondi, olhando para a linha do horizonte encoberta pela neblina.

O trem chegou com estrondo, portas se abrindo com um chiado metálico. As pessoas começaram a embarcar apressadas. Eu fiquei ali, parada, cigarro na mão, coração aos pulos.

Pensei em tudo que me prendia: meu pai rígido e calado desde que minha mãe ficou doente; minha mãe tentando manter a casa unida com receitas de bolo e conselhos sussurrados; Lucas sonhando em estudar fora, mas sem coragem de dizer isso em voz alta; eu mesma, sempre hesitando entre ficar e partir.

O apito soou novamente. Última chamada.

Joguei o cigarro no chão e pisei nele. Dei um passo à frente… e parei. Não consegui entrar no trem. Vi as portas se fecharem devagar diante dos meus olhos. O maquinista me olhou por um segundo antes de arrancar. Fiquei ali, sozinha na plataforma vazia.

Sentei no banco e chorei baixinho. Não era só pelo emprego perdido; era por todas as vezes em que deixei o medo decidir por mim. Por todas as palavras engolidas nos jantares silenciosos; por cada sonho adiado em nome da família ou da segurança.

O homem do cigarro sentou ao meu lado. — Às vezes a gente perde o trem certo pra pegar outro depois — disse ele, olhando para frente.

Fiquei ali até a chuva passar e o sol começar a aparecer entre as nuvens pesadas. Voltei pra casa andando devagar, sentindo o peso da derrota nos ombros.

Minha mãe estava na cozinha, mexendo uma panela de feijão. Quando me viu entrar, não disse nada; só abriu os braços e me abraçou forte.

— Não foi dessa vez — sussurrei no ouvido dela.

Ela me apertou mais ainda. — Vai ter outras vezes, filha. Só não pode desistir.

Meu pai entrou na cozinha logo depois. Olhou pra mim, depois pra minha mãe. — O que aconteceu?

— Perdi o trem — respondi baixo.

Ele suspirou fundo e saiu sem dizer nada. Fiquei olhando para as costas dele sumindo pelo corredor e senti uma raiva antiga crescer dentro de mim.

Naquela noite, durante o jantar, ninguém falou sobre o trem ou sobre Belo Horizonte. Lucas comentou sobre um campeonato de futebol na escola; minha mãe perguntou se alguém queria mais arroz; meu pai ficou calado como sempre.

Depois do jantar, fui pro meu quarto e fiquei olhando pro teto por horas. Pensei em tudo que poderia ter sido diferente se eu tivesse tido coragem de embarcar naquele trem. Pensei nas palavras não ditas entre mim e meu pai; nas lágrimas escondidas da minha mãe; nos sonhos silenciosos do Lucas.

No dia seguinte acordei cedo e fui até a estação de novo. Sentei no mesmo banco e esperei o próximo trem chegar. Não sabia se teria coragem dessa vez, mas sabia que precisava tentar de novo.

Enquanto esperava, lembrei das palavras do homem do cigarro: “Às vezes a gente perde o trem certo pra pegar outro depois”.

Talvez seja isso mesmo: a vida é feita de partidas perdidas e chegadas inesperadas. O importante é não parar de tentar.

E você? Já perdeu algum trem na vida? Será que ainda dá tempo de recomeçar?