O Dia em Que Tudo Mudou
— Mãe, pelo amor de Deus, você não viu a hora? — gritei, tropeçando nos chinelos enquanto corria pelo corredor apertado do nosso apartamento em Osasco. O relógio da cozinha marcava 9h30. Eu devia estar no estágio às 8h. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca.
Minha mãe, Dona Lúcia, estava sentada à mesa, mexendo o café com uma calma irritante. — Você que devia ter colocado o celular pra carregar, Mariana. Não sou sua babá.
Respirei fundo, tentando não chorar. O celular estava morto, e eu sabia que meu chefe, seu Roberto, não ia perdoar mais um atraso. Peguei a mochila jogada no sofá e saí correndo, ignorando o olhar de reprovação do meu irmão mais novo, Vinícius, que jogava videogame desde cedo.
Na rua, o sol já queimava forte. O ônibus passou lotado e nem parou. Senti vontade de sentar na calçada e desistir de tudo. Mas continuei andando até o ponto seguinte, com as pernas bambas e a cabeça cheia de pensamentos ruins.
No ônibus, tentei ligar o celular com a bateria reserva que sempre deixava na bolsa, mas nada funcionava. Olhei pela janela e vi a cidade passando rápido demais, como se minha vida estivesse fora do meu controle.
Quando finalmente cheguei ao escritório, seu Roberto me esperava na porta. — Mariana, essa é a terceira vez esse mês. Você sabe como tá difícil manter todo mundo aqui. Se não der pra você cumprir horário, melhor conversar logo.
Senti o rosto arder de vergonha. — Desculpa, seu Roberto. Foi um problema em casa… prometo que não vai acontecer de novo.
Ele suspirou, cansado. — Todo mundo tem problema em casa, Mariana. Mas a vida não espera ninguém.
Passei o resto do dia tentando compensar o atraso, mas nada parecia suficiente. As colegas cochichavam no fundo da sala; eu sabia que estavam falando de mim. No almoço, sentei sozinha no refeitório e fiquei mexendo no arroz frio.
Quando voltei pra casa, encontrei minha mãe discutindo com meu pai pelo telefone. Ele tinha ido embora há dois anos, mas nunca deixou de causar confusão. — Você não vai mandar dinheiro esse mês de novo? Como é que eu vou pagar as contas? — ela gritava.
Vinícius apareceu na porta do quarto. — Mãe tá chorando de novo por causa do pai?
Assenti em silêncio. Ele se sentou ao meu lado na cama e ficou olhando pro chão.
— Você acha que ele volta algum dia? — perguntou baixinho.
— Não sei, Vini. Acho que não.
Ele suspirou e saiu do quarto sem dizer mais nada.
À noite, sentei na varanda minúscula do apartamento e olhei as luzes da cidade. Senti um vazio enorme dentro de mim. Tudo parecia difícil demais: a faculdade à noite, o estágio de manhã cedo, as brigas em casa, a falta de dinheiro… Às vezes eu queria sumir.
No dia seguinte, acordei cedo demais. Não consegui dormir direito pensando no que seu Roberto tinha dito. Fui pra cozinha e encontrei minha mãe chorando baixinho.
— Mãe… — comecei, mas ela me interrompeu.
— Desculpa por ontem, filha. Eu só tô cansada… Não queria que vocês vissem isso.
Sentei ao lado dela e segurei sua mão. — A gente vai dar um jeito, mãe. Sempre deu.
Ela sorriu fraco e enxugou as lágrimas.
Naquela semana, tudo parecia piorar. Vinícius foi chamado na escola porque brigou com um colega; minha mãe perdeu um turno extra no hospital; eu fui chamada pra uma conversa séria no estágio. Seu Roberto disse que ia me dar mais uma chance, mas que eu precisava mostrar que queria mesmo estar ali.
No sábado à noite, minha mãe chamou todo mundo pra sala.
— Preciso contar uma coisa pra vocês — disse ela, com a voz trêmula.
Eu e Vinícius nos entreolhamos assustados.
— O pai de vocês… ele não vai mais ajudar com nada. E eu… perdi o emprego no hospital ontem.
O silêncio foi tão pesado que parecia sufocar.
— Mas como assim? — perguntei, sentindo o chão sumir sob meus pés.
Ela começou a chorar de novo. Vinícius saiu correndo pro quarto e bateu a porta com força.
Fiquei ali parada, sem saber o que fazer ou dizer. Minha mãe parecia tão pequena naquele sofá velho…
Naquela noite não dormi nada. Fiquei pensando em tudo: nas contas atrasadas, no aluguel vencendo, na comida acabando na geladeira. Pensei em largar a faculdade pra trabalhar mais horas; pensei em pedir ajuda pra minha tia Marta em Campinas; pensei até em procurar meu pai, mesmo sabendo que ele não queria saber da gente.
No domingo de manhã, Vinícius apareceu na cozinha com os olhos inchados.
— Desculpa por ontem — disse ele baixinho.
— Tá tudo bem, Vini. A gente vai dar um jeito juntos.
Ele assentiu e me abraçou forte.
Na segunda-feira, fui até seu Roberto antes do expediente começar.
— Seu Roberto… eu preciso muito desse estágio. Minha família tá passando por uma fase difícil. Eu prometo que vou me esforçar mais do que nunca.
Ele me olhou por um tempo que pareceu uma eternidade.
— Tá bom, Mariana. Vou confiar em você mais uma vez. Mas não me decepcione.
Saí dali com um peso enorme nas costas, mas também com uma esperança nova dentro do peito.
Em casa, ajudei minha mãe a montar currículos e procurar vagas pela internet. Vinícius começou a ajudar mais nas tarefas de casa e até parou de faltar na escola.
Os dias continuaram difíceis: às vezes faltava dinheiro pro gás ou pra passagem; às vezes minha mãe chorava escondido; às vezes eu pensava em desistir de tudo. Mas aos poucos fomos encontrando um jeito de seguir em frente juntos.
Um mês depois, minha mãe conseguiu um emprego novo numa clínica pequena perto de casa; Vinícius passou de ano na escola; eu fui efetivada no estágio e consegui uma bolsa na faculdade.
Sentada na varanda naquela noite quente de dezembro, olhei as luzes da cidade e pensei em tudo o que tinha acontecido desde aquele dia em que acordei atrasada e achei que era o fim do mundo.
Será que algum dia vou conseguir perdoar meu pai por ter ido embora? Será que vou conseguir ser forte o suficiente pra nunca deixar minha família desmoronar de novo?