Quatro Apartamentos Não Bastam: A Dor de Ser Esquecida Pela Própria Irmã
— Bozena, pelo amor de Deus, você já tem quatro apartamentos! Pra quê mais um? E eu e mamãe, vamos morar onde? Na rua? — minha voz saiu trêmula, quase um soluço, mas ela nem piscou. Estávamos na sala do velho apartamento da Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, onde crescemos juntas. O cheiro de café passado ainda pairava no ar, misturado ao perfume doce da nossa mãe, Dona Lourdes, que tentava acalmar os ânimos sentada no sofá, as mãos trêmulas apertando o terço.
Bozena cruzou os braços, o olhar duro como pedra. — Você sabe que é o melhor pra todo mundo. Eu posso investir nesse imóvel, reformar, alugar por um bom preço. Vocês podem procurar um lugar menor, mais barato. Não faz sentido duas pessoas num apartamento desse tamanho.
Senti meu peito apertar. A cada palavra dela, parecia que o chão sumia sob meus pés. Eu sabia que Bozena sempre foi ambiciosa, mas nunca imaginei que ela teria coragem de tirar o teto da própria mãe. Nossa mãe! Aquela mulher que criou duas filhas sozinha depois que papai morreu num acidente de ônibus na Avenida Brasil. Quantas noites Dona Lourdes ficou acordada costurando pra pagar as contas? Quantas vezes dividiu o último pedaço de pão entre nós?
— Você não tem coração, Bozena? — minha voz saiu baixa, quase um sussurro. — Mamãe não aguenta uma mudança dessas. Ela tem 78 anos! Você quer mesmo ver ela adoecer?
Ela desviou o olhar, mas não cedeu. — Eu já decidi. O apartamento é meu por direito também. Se vocês não quiserem sair numa boa, a gente resolve na justiça.
Senti as pernas fraquejarem. Minha irmã, minha própria irmã, ameaçando colocar a gente na rua com um processo judicial. Olhei pra mamãe, que chorava baixinho, os olhos perdidos no vazio. Meu coração se partiu em mil pedaços.
Lembrei das tardes em que brincávamos de casinha naquele mesmo chão de taco. Bozena era sempre a “mãe” mandona e eu a filha obediente. Agora ela queria ser dona de tudo — até do nosso passado.
Os dias seguintes foram um inferno. Bozena mandou um advogado nos procurar. Recebemos uma notificação: tínhamos 60 dias pra desocupar o imóvel ou responderíamos na justiça. Passei noites em claro pesquisando apartamentos minúsculos em bairros distantes, fazendo contas impossíveis com meu salário de professora municipal.
Mamãe piorou. Parou de comer direito, vivia chorando pelos cantos. Um dia, encontrei ela sentada na varanda olhando pro céu cinza do Rio.
— Filha… será que eu errei em alguma coisa? — ela perguntou baixinho. — Será que fui uma mãe tão ruim assim pra Bozena querer me ver longe?
Me ajoelhei ao lado dela e abracei forte.
— Não fala isso, mãe. A senhora foi tudo pra gente. É a Bozena que mudou… ou talvez nunca tenha mudado realmente.
No fundo, eu sabia: Bozena sempre foi assim. Quando éramos pequenas e ganhávamos balas na escola, ela escondia as dela e depois pedia as minhas. Quando papai morreu e mamãe ficou doente, fui eu quem cuidou da casa enquanto Bozena estudava pra passar em Direito e sair dali o quanto antes.
Mas nada disso justificava aquela crueldade.
Tentei conversar com ela mais uma vez. Liguei várias vezes; ela não atendeu. Mandei mensagem: “Bozena, por favor, pensa na mamãe.” Ela respondeu seco: “Negócios são negócios”.
No trabalho, mal conseguia me concentrar nas aulas. Uma aluna me perguntou por que eu estava tão triste. Quase chorei ali mesmo.
No fim do mês, Dona Lourdes teve uma crise de pressão alta e foi parar no hospital. Fiquei ao lado dela noite e dia. Quando Bozena apareceu no quarto — toda arrumada, salto alto e blazer caro — achei que finalmente ela tinha se arrependido.
— Vim só ver se está tudo bem — disse ela, sem emoção.
— Você está vendo? — explodi — Olha o que você está fazendo com a nossa mãe!
Ela deu de ombros.
— Vocês têm escolha. Podem sair logo ou esperar a ordem judicial.
Naquele momento, algo dentro de mim se quebrou de vez.
Procurei um advogado amigo da família. Ele me explicou que poderíamos contestar a partilha dos bens porque mamãe ainda estava viva e tinha direito ao usufruto vitalício do imóvel. Era nossa única esperança.
Começou então uma batalha judicial dolorosa e humilhante. Bozena não recuou; pelo contrário, ficou ainda mais fria e distante. No bairro, começaram os boatos: “A filha rica quer tirar a mãe de casa”; “Família boa só na aparência”; “Dinheiro muda as pessoas”.
Mamãe ficou cada vez mais frágil. Eu fazia de tudo pra animá-la: levava flores do jardim da vizinha, preparava bolo de fubá como nos velhos tempos, lia cartas antigas do papai pra ela sorrir um pouco.
Um dia, encontrei uma caixa de fotos antigas no armário. Numa delas estávamos nós três: eu pequena no colo da mamãe e Bozena abraçada nela, sorrindo largo. Mostrei pra mamãe.
— Olha como a Bozena era feliz aqui…
Mamãe chorou baixinho:
— O dinheiro endureceu o coração dela…
A audiência chegou rápido demais. No tribunal, vi minha irmã sentada ao lado do advogado dela — fria como gelo. Quando o juiz perguntou se havia possibilidade de acordo, tentei falar:
— Meritíssimo, tudo que pedimos é tempo… Minha mãe tem direito ao lar dela até o fim da vida…
Bozena nem olhou pra gente.
No fim, ganhamos o direito de permanecer no apartamento enquanto mamãe estivesse viva. Mas a vitória teve gosto amargo: perdi minha irmã para sempre.
Hoje olho pra Bozena e não reconheço mais aquela menina que dividia comigo segredos e sonhos infantis. O dinheiro vale mesmo mais do que amor de família?
Às vezes me pergunto: será que um dia vou conseguir perdoar minha irmã? Ou será que algumas feridas nunca cicatrizam?
E você? Até onde iria por dinheiro? Vale a pena perder quem você ama por causa de bens materiais?