Na fila do SUS: Entre a dor e a esperança
— Por que a senhora está furando a fila? Todo mundo aqui está doente! — gritou um homem, voz rouca, segurando um lenço ensanguentado contra o nariz.
A fila no posto de saúde do bairro estava mais longa do que nunca. O sol das oito da manhã já queimava minha nuca, mas o calor maior vinha dos olhares furiosos ao meu redor. Eu, Maria Aparecida, 52 anos, sentia o peso de cada olhar como se fossem pedras.
— Ainda me chama de senhora! Daqui a pouco vai me chamar de velha ou de babá! — retruquei, tentando manter a dignidade enquanto segurava o braço esquerdo, latejando de dor desde a noite anterior.
— Dona, todo mundo aqui tem problema! — disse uma moça jovem, com uma criança magra pendurada no colo. — Meu filho tá com febre há três dias e nem por isso tô passando na frente!
O homem com a cabeça enfaixada, sentado num banco improvisado de madeira, balançou a mão no ar:
— Deixa ela passar, gente. Vai ver tá pior que nós. Aqui ninguém tem pressa mesmo.
— Como não tem? — explodiu uma senhora de cabelos brancos, apoiada numa bengala. — Eu tenho consulta marcada faz dois meses! Se cada um inventar desculpa, ninguém é atendido!
O burburinho aumentou. Senti as pernas bambas. Não era só a dor física; era o constrangimento, a vergonha de estar ali implorando por um pouco de compaixão. Mas eu precisava ser atendida. Meu braço estava inchado, vermelho, e eu já não sentia os dedos direito.
Fechei os olhos por um instante e lembrei da noite anterior. Meu marido, Paulo, tinha chegado tarde do trabalho, cansado e mal-humorado. A discussão começou por causa do dinheiro: o aluguel atrasado, a conta de luz quase cortada e agora eu doente. Ele não queria que eu viesse ao posto sozinha.
— Você vai desmaiar no meio da rua! — ele gritou. — E se não te atenderem? E se for coisa séria?
— Paulo, eu preciso tentar! Não temos dinheiro pra particular. Se eu esperar mais, posso perder o braço!
Ele bateu a porta do quarto e ficou em silêncio. Saí antes do sol nascer, sem coragem de acordá-lo.
Agora, ali na fila, sentia vontade de chorar. Mas não podia demonstrar fraqueza. No Brasil, mulher pobre não tem direito nem de adoecer.
A fila se agitava. Uma senhora baixinha se aproximou de mim:
— Filha, você tá pálida… Quer sentar aqui um pouco?
— Obrigada… — sussurrei, aceitando o lugar no banco improvisado.
O tempo parecia não passar. O segurança do posto saiu para organizar a fila:
— Gente, vamos manter a calma! Só vão entrar mais três agora. Quem for prioridade?
A moça com a criança levantou a mão:
— Meu filho tem febre alta!
O homem com a cabeça enfaixada também se manifestou:
— Tô esperando desde ontem à noite!
Olhei para o segurança, tentando explicar:
— Moço… meu braço tá muito ruim… tô perdendo a sensibilidade…
Ele me olhou de cima a baixo e suspirou:
— Senhora, prioridade é gestante ou criança de colo. A senhora vai ter que esperar mais um pouco.
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Não era só comigo; era com todo aquele sistema que nos tratava como números. Olhei para as pessoas ao meu redor: cada uma com sua dor, sua urgência, sua história.
De repente, ouvi um grito vindo do final da fila:
— Ela tá desmaiando! Socorro!
Todos se viraram. Uma adolescente magra caiu no chão, olhos revirados. O segurança correu até ela e gritou para dentro do posto:
— Enfermeira! Tem emergência aqui!
O caos se instalou. Algumas pessoas tentaram ajudar; outras reclamavam ainda mais alto.
— Tá vendo? Se tivesse organização isso não acontecia! — gritou o homem do lenço ensanguentado.
A enfermeira apareceu correndo e levou a menina para dentro. O resto da fila ficou ainda mais impaciente.
Nesse momento, senti uma tontura forte. O suor escorria pelo rosto e as mãos tremiam. A senhora baixinha percebeu:
— Filha, você tá piorando… Quer que eu chame alguém?
Balancei a cabeça negativamente. Não queria causar mais confusão. Mas meu corpo já não obedecia.
Foi quando ouvi uma voz familiar atrás de mim:
— Maria! O que você tá fazendo aqui sozinha?
Era minha filha mais velha, Juliana. Ela tinha saído do trabalho mais cedo ao saber que eu estava mal.
— Mãe, você tá gelada! Vem comigo agora!
Ela me puxou pelo braço bom e entrou comigo no posto sem pedir licença. O segurança tentou impedir:
— Moça, não pode entrar assim!
Juliana encarou ele com firmeza:
— Minha mãe vai desmaiar! Se acontecer alguma coisa com ela aqui fora vocês vão ser responsáveis!
A enfermeira ouviu o barulho e veio até nós:
— O que tá acontecendo?
Juliana explicou rápido e me colocaram numa cadeira de rodas improvisada. Fui levada direto para dentro.
Enquanto me examinavam, ouvi os murmúrios da fila lá fora. Gente reclamando, gente chorando, gente cansada de esperar por um mínimo de dignidade.
O médico olhou meu braço e franziu a testa:
— Isso aqui é grave. Pode ser infecção generalizada. Vamos internar agora.
Meu coração disparou. Pensei em Paulo, nos filhos pequenos em casa, nas contas acumulando na mesa da cozinha.
Fiquei internada três dias. Juliana ficou comigo o tempo todo; Paulo apareceu só no segundo dia, ainda com cara fechada.
Quando voltei pra casa, tudo parecia igual — mas dentro de mim algo tinha mudado. A dor física passou aos poucos; mas a dor da humilhação naquela fila ficou marcada.
Na semana seguinte, encontrei algumas das pessoas da fila no mercado do bairro. Troquei olhares rápidos com a senhora baixinha; ela sorriu tímido pra mim.
No caixa ouvi alguém comentar:
— Dizem que vão cortar verba do posto de novo… Vai piorar ainda mais.
Fiquei pensando em quantas Marias ainda vão sofrer naquelas filas; quantos filhos vão perder mães por falta de atendimento; quantos pais vão morrer esperando uma consulta.
À noite, sentei na varanda e olhei pro céu escuro do subúrbio carioca.
Será que um dia vamos ser tratados como gente? Ou vamos continuar sendo só números nas filas intermináveis?