Oito de Março: Entre Silêncios e Gritos
— Marzena, por favor, abre a porta! — a voz da Agata tremia, misturando preocupação e impaciência. Eu estava sentada no chão frio do banheiro, abraçando meus joelhos, tentando controlar a respiração. O espelho embaçado refletia meus olhos inchados, e o som das batidas ecoava como um tambor dentro da minha cabeça.
Oito de março. O sol atravessava as cortinas brancas do nosso apartamento em Belo Horizonte, desenhando sombras no azulejo. Lá fora, o mundo parecia celebrar, mas aqui dentro, tudo era silêncio e medo. Eu sabia que Agata não ia desistir. Ela sempre foi assim: persistente, protetora, quase sufocante.
— Marzena, fala comigo! — insistiu ela, agora quase chorando. — Você tá bem? Por favor, abre!
Respirei fundo. Queria responder, mas as palavras não saíam. O cheiro de sabonete misturado ao perfume barato da mamãe me fazia lembrar de outros dias oito de março, quando ela nos acordava com café na cama e um sorriso cansado. Agora, tudo parecia distante. Desde que mamãe morreu, há dois anos, Agata e eu tentamos preencher o vazio, mas só conseguimos nos perder ainda mais.
Ouvi passos pesados no corredor. Era o Paulo, marido da Agata. Ele resmungou algo sobre barulho e trabalho, mas logo voltou para o quarto. Agata continuou ali, firme.
— Se você não abrir, vou chamar o papai! — ameaçou.
A ameaça me fez rir por dentro. Papai estava em São Paulo, trabalhando como motorista de aplicativo, quase nunca ligava. Desde que mamãe se foi, ele se afastou ainda mais. Eu sabia que Agata só queria me proteger, mas às vezes sentia que ela queria me controlar.
Finalmente, destranquei a porta. Agata entrou de supetão, os olhos vermelhos de preocupação.
— O que aconteceu? Você tá pálida! — Ela se ajoelhou ao meu lado.
— Só queria ficar sozinha — sussurrei.
Ela me abraçou forte. Senti o cheiro do seu shampoo de coco e quase chorei de novo.
— Hoje é nosso dia — disse ela, tentando sorrir. — Vamos sair, tomar um café, sei lá… Não fica trancada aqui.
Assenti sem convicção. Sabia que ela não ia sossegar enquanto eu não saísse daquele banheiro.
No café da manhã, a mesa estava posta: pão francês, queijo minas, café preto forte. Agata falava sem parar sobre o trabalho dela na escola municipal, sobre as crianças e as flores que tinham dado para as professoras. Paulo lia o jornal no celular, alheio a tudo.
— Você devia procurar um emprego também, Marzena — disse ele de repente, sem levantar os olhos. — Ficar em casa não vai te ajudar.
Agata lançou um olhar fulminante para ele.
— Paulo, não começa!
— Só tô dizendo — resmungou ele.
Engoli em seco. Desde que perdi meu estágio na pandemia, não consegui mais me encaixar em lugar nenhum. As entrevistas eram sempre iguais: perguntas vazias, olhares desconfiados para meu currículo curto e minha expressão cansada.
Depois do café, Agata insistiu para irmos ao parque. O céu estava limpo, e as árvores floridas faziam sombra nos bancos de concreto. Sentamos perto do lago artificial. Crianças corriam, mulheres tiravam fotos com buquês de flores.
— Você lembra quando mamãe trazia a gente aqui? — perguntou Agata.
Assenti. Lembrava de tudo: dos piqueniques improvisados, das risadas, dos sonhos que mamãe tinha para nós. Ela queria que fôssemos independentes, felizes. Mas a vida foi dura demais com ela — e conosco.
— Sinto falta dela todos os dias — confessei.
Agata segurou minha mão.
— Eu também. Mas a gente precisa seguir em frente, Marzena. Por ela. Por nós.
Olhei para o céu azul e senti uma pontada no peito. Como seguir em frente quando tudo parecia tão pesado?
Voltamos para casa no fim da tarde. Paulo já tinha saído para trabalhar. O apartamento parecia mais silencioso sem ele. Agata foi tomar banho e eu fiquei na sala, olhando as fotos antigas na estante: mamãe sorrindo com um bolo de aniversário; papai abraçando a gente na praia; Agata e eu fantasiadas de princesas num carnaval qualquer.
Meu celular vibrou. Era uma mensagem do papai:
“Feliz Dia da Mulher pra vocês. Amo vocês.”
Simples assim. Sem emojis, sem promessas de visita. Senti raiva e tristeza ao mesmo tempo. Por que ele nunca estava presente? Por que tudo tinha que ser tão difícil?
À noite, Agata preparou um jantar especial: lasanha de berinjela, receita da mamãe. Sentamos à mesa só nós duas. Ela tentou puxar assunto sobre política, sobre os protestos das mulheres no centro da cidade.
— Você devia ir também — disse ela. — Fazer parte de algo maior pode ajudar.
— Não sei se tenho forças — respondi.
Ela suspirou.
— Você precisa reagir, Marzena. Não pode se entregar assim.
As palavras dela me cortaram como faca. Eu sabia que ela tinha razão, mas também sabia que não era tão simples. A depressão não era só tristeza — era um buraco negro que sugava tudo ao redor.
Depois do jantar, fui para o quarto e fechei a porta. Deitei na cama e chorei baixinho. Pensei em mamãe, em tudo que ela passou: os abusos do marido alcoólatra antes de papai; as noites trabalhando como diarista para pagar nossas escolas; os sonhos adiados por falta de dinheiro ou tempo.
Pensei em mim: na faculdade trancada por falta de ânimo; nos amigos que se afastaram; na sensação constante de fracasso.
Ouvi Agata falando ao telefone na sala:
— Ela tá mal de novo… Não sei mais o que fazer… Eu tento ajudar, mas parece que nada adianta…
Senti culpa por ser um peso para ela. Queria gritar que eu estava tentando, que eu não queria ser assim. Mas as palavras morriam na garganta.
Na manhã seguinte, acordei cedo. O sol entrava tímido pela janela. Fui até a cozinha e encontrei Agata dormindo no sofá, o rosto marcado pelo cansaço.
Preparei café e sentei ao lado dela quando acordou.
— Desculpa por ontem — disse baixinho.
Ela sorriu triste.
— Não precisa pedir desculpa. Eu só quero te ver bem.
Nos abraçamos em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez houvesse esperança.
Às vezes penso: quantas mulheres vivem esse mesmo drama em silêncio? Quantas Marzenas existem por aí, lutando para sobreviver num mundo que exige força o tempo todo?
Será que um dia vamos conseguir ser felizes de verdade? O que vocês acham: é possível recomeçar depois de tanta dor?