Depois de Dezesseis Anos: O Milagre de Ser Mãe aos Cinquenta
— Dona Maria, a senhora está pronta? — perguntou a enfermeira, com um sorriso gentil, mas ansioso. Eu estava sentada na sala de espera do hospital público de Itabira, mãos suadas, coração disparado. Olhei para o relógio: 6h40 da manhã. Era o dia do parto. Aos cinquenta anos, depois de dezesseis anos de tentativas, perdas e humilhações, eu finalmente ia conhecer minha filha.
Meu nome é Maria das Graças, mas por muitos anos me senti tudo, menos agraciada. Lembro da primeira vez que tentei engravidar, ainda com trinta e quatro anos, recém-casada com o Antônio. Ele era caminhoneiro, passava semanas fora, mas sempre voltava com um sorriso e um presente simples: um doce de leite, uma flor roubada do jardim da estrada. Nosso sonho era simples: uma casa cheia de filhos.
Mas os meses viraram anos. Cada menstruação era uma facada. As vizinhas, como a Dona Cida, faziam questão de comentar:
— E aí, Maria, nada do neném? — perguntava ela, com aquele tom que misturava pena e maldade.
Eu sorria amarelo, mas por dentro sentia inveja. Via as mães no parque, no mercadinho, na missa. Sentia raiva de mim mesma, do meu corpo que me traía. Fui a médicos, tomei chás, fiz simpatias. Antônio tentava me consolar:
— O que importa é a gente se amar, Maria. Mas eu via nos olhos dele o mesmo vazio que sentia.
Aos quarenta, depois de três abortos espontâneos, pensei em desistir. Minha mãe, Dona Lourdes, dizia:
— Filha, aceita. Deus sabe o que faz.
Mas como aceitar? Como não sentir inveja da minha irmã mais nova, a Luciana, que já tinha três filhos e reclamava do barulho deles?
O tempo foi passando. O casamento esfriou. Antônio ficou mais calado, mais ausente. Eu me afundei no trabalho como professora na escola municipal. Meus alunos eram meu consolo, mas cada Dia das Mães era uma tortura. Recebia flores das crianças, mas não eram minhas.
Aos quarenta e oito, já sem esperança, fui diagnosticada com endometriose severa. O médico foi direto:
— Dona Maria, a senhora tem poucas chances. Mas se quiser tentar uma última vez, existe a fertilização in vitro.
Era caro. Antônio já não tinha o mesmo entusiasmo. Brigamos feio:
— Você não vê que está se torturando? — ele gritou uma noite. — E se não der certo?
— E se der? — respondi, chorando.
Peguei empréstimo, vendi as alianças do casamento. Minha mãe ficou furiosa:
— Vai se endividar por um sonho impossível?
Mas eu precisava tentar. Fui sozinha à clínica em Belo Horizonte. O procedimento foi doloroso, física e emocionalmente. Passei noites em claro, rezando, conversando com Deus:
— Se for pra ser, que seja agora. Se não, me dá paz pra desistir.
Quando o teste deu positivo, não acreditei. Liguei para Antônio, que chorou do outro lado da linha. Voltamos a nos aproximar, tímidos, como dois adolescentes.
A gravidez foi difícil. Pressão alta, repouso absoluto. Minha mãe veio morar comigo para ajudar. As vizinhas cochichavam:
— Olha lá, a velha grávida! — ouvi uma vez no mercado.
Fingi não ouvir. Só pensava na minha filha. Cada ultrassom era um milagre. Antônio voltou a sorrir, a planejar o futuro.
No dia do parto, entrei na sala de cirurgia rezando. Quando ouvi o primeiro choro da minha filha, desabei. Chorei como nunca tinha chorado na vida. Peguei-a nos braços: pequena, frágil, mas perfeita.
Hoje escrevo este diário com ela dormindo ao meu lado. Sinto medo: medo de não viver o suficiente para vê-la crescer, medo dos julgamentos, medo de falhar. Mas sinto também uma gratidão imensa.
Antônio mudou. Agora ele é o pai mais babão do bairro. Minha mãe, que tanto criticou, agora não larga a neta. As vizinhas? Algumas ainda cochicham, mas outras me olham com respeito.
Minha irmã Luciana veio me visitar outro dia. Trouxe os filhos e ficou olhando minha bebê com olhos marejados:
— Você nunca desistiu, né, Maria?
Sorri. Não desisti. Não porque sou forte, mas porque não sabia como desistir.
Às vezes me pergunto: será que fui egoísta? Será que minha filha vai sofrer por ter pais mais velhos? Mas então olho para ela e penso: cada segundo valeu a pena.
E você? O que faria se o seu maior sonho parecesse impossível? Até onde iria para realizá-lo?