O Relógio Parado e a Árvore que Plantei por Nós Dois
O ponteiro do relógio parou às cinco e meia. Não era nem manhã, nem noite. Era só um tempo suspenso, como eu. Sentei-me à mesa de madeira antiga, aquela que foi do meu avô, e fiquei girando o relógio de bolso do André entre os dedos. O metal frio, a tampa arranhada, o vidro rachado — tudo nele era memória. Tudo nele era ausência.
— Magda, você vai ficar aí o dia todo? — a voz da minha mãe ecoou da cozinha, carregada de impaciência e preocupação.
Não respondi. Não conseguia. Desde que o André se foi, as palavras ficaram presas na garganta, como se falar fosse trair a dor. Ele sempre dizia que queria plantar uma árvore no quintal da nossa casa nova. “Pra ver crescer junto com a gente”, ele sonhava. Mas não deu tempo. O câncer foi mais rápido do que nossos planos.
Minha mãe apareceu na porta, enxugando as mãos no avental florido.
— Filha, você precisa reagir. A vida continua.
Olhei para ela com raiva e tristeza. Como se fosse fácil continuar quando metade de mim tinha ido embora.
— Mãe, você não entende…
Ela suspirou fundo, sentou-se ao meu lado e pegou minha mão.
— Eu perdi seu pai também. Sei como dói. Mas você tem que levantar dessa cadeira.
O relógio pesava ainda mais na minha mão. Levantei-me devagar e fui até o quintal. O céu estava nublado, ameaçando chuva. O terreno era grande, cheio de mato alto e lembranças do que poderia ter sido.
Peguei a enxada que estava encostada no muro. Senti o cheiro da terra úmida, misturado ao perfume das flores que André plantou no primeiro mês aqui. Lembrei da nossa conversa na varanda:
— Magda, quando a gente tiver um filho, ele vai brincar debaixo dessa árvore — ele disse, apontando para o espaço vazio.
— E se for menina? — brinquei.
— Vai ser a rainha do nosso jardim — ele respondeu, sorrindo daquele jeito que só ele sabia.
A enxada cortou a terra com dificuldade. Cada golpe era um desabafo, uma tentativa de arrancar a dor do peito. As lágrimas vieram sem pedir licença. Chorei por tudo: pelo filho que não tivemos, pela árvore que não plantamos juntos, pelo tempo que nos foi roubado.
De repente, ouvi passos atrás de mim. Era minha irmã, Luciana.
— Magda, o que você está fazendo?
— Vou plantar a árvore do André — respondi, sem olhar para ela.
Ela ficou em silêncio por um tempo, depois se aproximou e me abraçou por trás.
— Posso ajudar?
Assenti com a cabeça. Juntas cavamos o buraco. Luciana trouxe uma muda de ipê amarelo — a preferida dele. Colocamos a muda na terra com cuidado, cobrimos as raízes e regamos com água e lágrimas.
Quando terminamos, sentei no chão ao lado da árvore recém-plantada. Luciana ficou em pé ao meu lado, olhando para o céu carregado.
— Você acha que ele está vendo isso? — perguntei baixinho.
— Acho que sim — ela respondeu, apertando minha mão.
Os dias seguintes foram difíceis. A família começou a se reunir mais aqui em casa, cada um tentando ajudar do seu jeito. Minha mãe insistia para eu voltar a trabalhar na escola municipal; meu irmão Paulo queria vender a casa e recomeçar em outro lugar; minha tia Rosa dizia que eu precisava “seguir em frente” e encontrar outro amor.
Mas como seguir em frente quando tudo ao redor me lembrava o André? O cheiro do café pela manhã, o barulho da chuva no telhado de zinco, até o latido do cachorro da vizinha parecia carregar um pouco dele.
Numa noite chuvosa, sentei-me novamente à mesa com o relógio de bolso nas mãos. O barulho da tempestade lá fora era quase ensurdecedor. De repente, ouvi uma discussão na sala:
— Ela precisa de ajuda! — gritou Paulo.
— Ela precisa de tempo! — rebateu minha mãe.
Levantei-me devagar e fui até eles.
— Eu só preciso que vocês me deixem sentir — disse, com a voz embargada.
Todos ficaram em silêncio. Sentei no sofá e encarei cada um deles.
— Eu plantei aquela árvore porque era nosso sonho. Não quero vender essa casa. Não quero esquecer o André. Mas também não quero ficar presa nessa dor pra sempre.
Minha mãe chorou baixinho. Paulo desviou o olhar. Luciana veio até mim e me abraçou forte.
Os meses passaram devagar. A árvore começou a crescer, tímida mas resistente. Aos poucos fui voltando à vida: voltei a dar aulas na escola, comecei a cuidar do jardim com mais carinho e até adotei um cachorro abandonado que apareceu no portão.
Mas a saudade nunca foi embora. Ela só mudou de forma. Às vezes vinha como uma brisa suave; outras vezes como uma tempestade repentina.
Numa tarde ensolarada de setembro, sentei-me sob a sombra da árvore do André pela primeira vez. O ipê estava florido, amarelo como ouro derretido sob o sol do interior de Minas Gerais. Peguei o relógio de bolso e coloquei aos pés da árvore.
— Aqui está nosso tempo parado — sussurrei — mas a vida continua crescendo.
Fechei os olhos e senti uma paz estranha invadir meu peito. Talvez nunca deixe de sentir falta dele. Talvez nunca plante outra árvore com alguém. Mas agora sei que posso transformar dor em raiz, saudade em flor.
Será que algum dia a gente aprende mesmo a dizer adeus? Ou será que só aprendemos a viver com o vazio? Quero ouvir vocês: como vocês lidam com as ausências na vida?