O Último Bolo de Dona Valentina
— Eliana, pelo amor de Deus, apressa esse chantilly! — gritei da sala, sentindo o suor escorrer pela testa enquanto ajeitava o último pedaço do bolo sobre a mesa. O relógio antigo da parede, herança da minha mãe, marcava 17h30. Faltava meia hora para os convidados chegarem e eu sentia o coração disparar como se fosse explodir a qualquer momento.
O cheiro doce do bolo de coco invadia a casa, misturado ao perfume das flores que comprei na feira do seu Zé, ali na esquina. O pano de mesa bordado com margaridas — presente da minha sogra no nosso primeiro aniversário — estava perfeitamente alinhado. Mas nada disso conseguia abafar o nó na minha garganta.
— Mãe, precisa mesmo disso tudo? — perguntou Eliana, minha filha mais velha, surgindo na porta da cozinha com o rosto suado e as mãos cobertas de glacê.
— Precisa, sim! Dezesseis anos de casamento não é pouca coisa, Eliana. — tentei sorrir, mas minha voz saiu trêmula. — Seu pai merece uma festa bonita.
Ela me olhou de um jeito estranho, como se soubesse que eu estava mentindo. Talvez soubesse mesmo. Afinal, quem mais além dela presenciou tantas noites em claro, tantas discussões abafadas atrás da porta do quarto?
O telefone tocou. Meu coração gelou. Por um segundo, temi que fosse ele, dizendo que não viria. Mas era minha irmã, Luciana.
— Valentina, você tá bem? — a voz dela vinha baixa, preocupada. — Precisa de ajuda aí?
— Tá tudo sob controle, Lu. Só um pouco nervosa.
— Nervosa por quê? Vocês já passaram por tanta coisa…
Eu quis responder que era justamente por isso. Porque passamos por tanta coisa que já não sabia mais se havia algo inteiro entre mim e Renato além das lembranças e das mágoas.
Quando desliguei, Eliana já estava na sala, ajeitando os talheres. Ela me olhou de novo, dessa vez com pena.
— Mãe… você acha mesmo que ele mudou?
Fingi não ouvir. Fui até o espelho do corredor e ajeitei o cabelo. As rugas ao redor dos olhos pareciam mais profundas hoje. Talvez fosse só a luz do fim de tarde entrando pela janela, ou talvez fosse o peso dos anos.
Renato chegou cedo demais. O barulho da chave girando na porta me fez pular. Ele entrou com um buquê de rosas vermelhas — as mesmas que me deu no nosso primeiro encontro, lá no coreto da praça central de Uberaba.
— Feliz aniversário pra gente, Val — disse ele, sorrindo daquele jeito torto que sempre me desarmava.
Eu quis acreditar naquele sorriso. Quis esquecer as mensagens no celular dele que encontrei há dois meses, as ligações misteriosas à noite, os sumiços repentinos. Quis ser só aquela menina apaixonada de dezesseis anos atrás.
Mas não consegui.
— Renato… — comecei, mas fui interrompida pelo barulho da campainha. Os convidados começaram a chegar: minha sogra Dona Cida com seu olhar crítico; meu cunhado Paulo já meio bêbado; minha irmã Luciana trazendo um pudim; os vizinhos curiosos para saber se era verdade que nosso casamento estava por um fio.
A sala ficou cheia de vozes e risadas forçadas. Eu circulava entre eles como uma atriz num palco improvisado, servindo refrigerante e fingindo alegria.
No meio da festa, ouvi Dona Cida cochichando com Luciana:
— Ela faz tudo isso pra quê? Pra segurar homem? Homem quando quer ir embora vai mesmo…
Fingi não ouvir. Fingi não sentir o olhar de pena das amigas quando Renato me abraçou para tirar foto e eu endureci sem querer.
O bolo foi servido entre palmas tímidas. Renato fez um discurso rápido:
— Dezesseis anos juntos… Nem sempre foi fácil, mas estamos aqui. Obrigado por tudo, Valentina.
As palavras dele ecoaram vazias dentro de mim. Eu queria gritar: “Por tudo o quê? Pelas mentiras? Pelas traições? Pelo medo constante de acordar sozinha?”
Mas sorri para as fotos. Sorri para os filhos. Sorri para os vizinhos.
Quando todos foram embora e a casa ficou em silêncio, sentei na mesa ainda posta e encarei o resto do bolo.
Renato apareceu na porta da cozinha:
— Val…
Eu não respondi. Só olhei para ele, esperando que dissesse alguma coisa diferente daquela desculpa esfarrapada de sempre.
— Eu sei que errei — ele disse baixinho. — Mas eu quero tentar de novo… Por nós. Pelos meninos.
As lágrimas vieram sem aviso. Chorei como não chorava há anos. Chorei por mim, pela menina sonhadora que acreditou em promessas vazias; chorei pelos meus filhos, pela família que tentei manter unida a qualquer custo; chorei pelo medo do futuro e pela saudade do passado.
Renato se aproximou e tentou me abraçar. Eu hesitei, mas deixei. O cheiro dele misturado ao perfume das rosas me trouxe lembranças boas e ruins ao mesmo tempo.
— Você acha que a gente consegue? — perguntei com a voz embargada.
Ele não respondeu. Apenas me segurou forte.
Naquela noite, depois que todos dormiram, fiquei sentada na varanda olhando as luzes da cidade ao longe. Pensei em tudo o que vivi até ali: as alegrias simples, as dores escondidas, os sonhos adiados.
Será que vale a pena lutar por um amor ferido? Ou é melhor recomeçar sozinha?
E você aí… já se sentiu assim alguma vez? O que faria no meu lugar?