Segunda Chance: Entre Mentiras e Recomeços
— Joana, você vai pra casa? — A voz da Beatriz cortou o silêncio do escritório, enquanto ela tamborilava as unhas vermelhas no tampo da mesa. Eu nem olhei pra ela. — Não, vou ficar mais um pouco. O Marcelo vai passar aqui pra me buscar — menti, sentindo o peso daquelas palavras como uma pedra no peito.
Beatriz deu de ombros, ajeitou a bolsa cara no ombro e saiu rebolando, deixando um rastro de perfume doce no ar. Um a um, os colegas foram indo embora, até que só restou o barulho do ventilador velho girando preguiçoso no teto. Olhei para o relógio: 19h12. Meu expediente acabava às 18h, mas eu não tinha pressa nenhuma de voltar pra casa.
Meu casamento com Marcelo era uma fachada. Fazia meses que ele não me buscava no trabalho, nem sequer me mandava mensagem perguntando se eu estava bem. Dormíamos em quartos separados desde que ele perdeu o emprego e começou a beber escondido. Mas ninguém sabia disso. Para minha mãe, para os vizinhos do prédio em Belo Horizonte, para os colegas do banco, éramos o casal perfeito: apartamento financiado, carro na garagem, viagens parceladas em dez vezes sem juros.
Naquela noite, sentei na minha mesa e fiquei encarando a tela do computador desligado. Senti vontade de chorar, mas segurei. Lembrei das palavras da minha mãe, Dona Lúcia: “Mulher tem que aguentar firme. Casamento é pra vida toda.” Mas será que era mesmo?
O celular vibrou. Era uma mensagem da minha irmã, Camila: “Joana, mãe tá perguntando se você vai lá domingo. Ela quer fazer feijão tropeiro.” Sorri triste. Camila sempre foi a filha rebelde, aquela que largou tudo pra morar numa república em Ouro Preto e fazer teatro. Eu era o oposto: a filha certinha, que nunca dava trabalho.
Levantei da cadeira e fui até a janela do escritório. Lá fora, a cidade fervilhava: buzinas, gente apressada, luzes dos prédios acendendo uma a uma. Senti inveja daquela gente anônima, livre para ser quem quisesse.
De repente, ouvi passos no corredor. Era o seu Antônio, o zelador.
— Dona Joana, vai ficar até tarde hoje de novo? — perguntou com aquele sotaque mineiro arrastado.
— Só mais um pouquinho, seu Antônio. Tô esperando meu marido — menti de novo.
Ele sorriu com pena e foi embora. Senti vergonha. Não dele, mas de mim mesma.
Peguei minhas coisas e desci as escadas devagar. O elevador estava quebrado há dias — mais um problema que ninguém resolvia naquele prédio antigo do centro.
Na rua, o vento frio me fez abraçar o próprio corpo. Caminhei até o ponto de ônibus fingindo que não via os olhares dos ambulantes desmontando suas barracas.
No ônibus lotado, sentei perto da janela e fiquei olhando as luzes passando rápido demais. Lembrei do dia em que conheci Marcelo na faculdade: ele era engraçado, sonhador, dizia que ia mudar o mundo. Onde foi parar aquele homem?
Cheguei em casa quase 21h. O apartamento estava escuro. Marcelo não estava lá — provavelmente no bar da esquina com os amigos de infância.
Joguei a bolsa no sofá e fui direto pro banho. A água quente escorrendo pelo corpo parecia levar embora um pouco da tristeza acumulada.
Quando saí do banheiro enrolada na toalha, ouvi a porta bater forte.
— Joana! — Marcelo entrou tropeçando nos próprios pés, cheiro forte de cachaça misturado com desodorante barato.
— Você sumiu de novo — falei baixo, tentando não chorar.
— Tava resolvendo umas coisas — ele respondeu sem olhar pra mim.
— Que coisas? — insisti.
Ele jogou as chaves na mesa e me encarou com raiva:
— Você não entende nada! Fica aí bancando a certinha enquanto eu me mato tentando arrumar emprego!
— Eu só queria saber se você tá bem… — minha voz saiu fraca.
Ele bufou e foi pro quarto dele, batendo a porta com força.
Sentei no chão da sala e chorei baixinho pra ninguém ouvir. Pensei em ligar pra Camila, mas desisti. Ela ia dizer pra eu largar tudo e recomeçar. Mas será que eu tinha coragem?
No dia seguinte, acordei cedo e preparei café como se nada tivesse acontecido. Marcelo saiu sem falar comigo. No trabalho, Beatriz me olhou com aquele olhar de quem sabe mais do que diz:
— Tá tudo bem em casa? — perguntou enquanto passava batom vermelho diante do espelho do banheiro.
— Tá sim — menti pela terceira vez em menos de 24 horas.
Na hora do almoço, sentei sozinha na praça em frente ao banco e fiquei observando as pessoas: mães com crianças pequenas, casais de namorados rindo alto, idosos jogando dominó na sombra das árvores.
Peguei o celular e digitei uma mensagem pra Camila: “Você acha errado desistir?” Apaguei antes de enviar.
Naquela noite, Marcelo não voltou pra casa. Liguei pra ele várias vezes, mas só caía na caixa postal. Fiquei andando pela sala feito alma penada até quase três da manhã.
No sábado cedo, Dona Lúcia ligou:
— Joana, você vem domingo? Fiz aquele bolo de fubá que você gosta.
Quase disse que não ia, mas minha mãe sempre soube quando eu estava mal.
— Vou sim, mãe — respondi tentando soar animada.
No domingo à tarde, sentei à mesa da cozinha com Camila e minha mãe. O cheiro de feijão tropeiro enchia a casa de lembranças boas.
Camila me olhou nos olhos:
— Você tá infeliz, Joana. Por que não fala logo?
Minha mãe ficou tensa:
— Que conversa é essa?
Engoli em seco:
— Eu… eu não sei mais se quero continuar casada com o Marcelo.
O silêncio foi pesado como chumbo. Minha mãe suspirou fundo:
— Filha, casamento é difícil mesmo… Mas você precisa ser feliz também.
Camila segurou minha mão:
— Não adianta viver de mentira só pra agradar os outros.
Naquele momento percebi que precisava tomar uma decisão. Voltei pra casa decidida a conversar com Marcelo assim que ele aparecesse.
Ele chegou tarde naquela noite, ainda bêbado. Sentei ao lado dele na cama:
— Marcelo, a gente precisa conversar.
Ele me olhou cansado:
— Vai terminar comigo?
Fiquei em silêncio por alguns segundos eternos:
— Eu quero tentar de novo… mas só se você quiser mudar também. Senão é melhor cada um seguir seu caminho.
Ele chorou pela primeira vez em anos. Disse que ia tentar buscar ajuda. Pela primeira vez em muito tempo senti esperança misturada com medo.
Hoje escrevo essa história sem saber como vai terminar. Só sei que não quero mais viver de mentira.
Será que vale a pena insistir quando tudo parece perdido? Ou é melhor recomeçar do zero? O que vocês fariam no meu lugar?