Quando o Amor se Perde no Caminho: Um Fim de Semana na Casa da Bisa
— Você vai ou não vai entrar, Tomás? — perguntei, já com a mão na maçaneta do portão enferrujado. Ele ficou parado ao lado do carro, olhando para o mato alto que cercava a casa da minha bisa Mariquinha, como se aquilo fosse um obstáculo intransponível.
— Catarina, você sabe que eu não gosto dessas viagens. A gente podia ter ficado em BH, descansado um pouco… — resmungou, baixinho, mas alto o suficiente para eu ouvir.
— Ela tem noventa e oito anos, Tomás. Pode ser a última vez. — Minha voz saiu mais trêmula do que eu queria. Eu sabia que ele não queria estar ali, mas precisava que ele estivesse. Não só por mim, mas por nós.
A casa da bisa era pequena, de madeira antiga, com cheiro de café passado e bolo de fubá. Mariquinha estava sentada na cadeira de balanço, os olhos fundos brilhando quando me viu.
— Minha netinha! — Ela abriu os braços magros. — E trouxe o marido! Que benção!
Tomás sorriu amarelo, apertou a mão dela e ficou olhando para o chão. Eu tentei ignorar o incômodo crescendo dentro do peito. A verdade é que fazia meses que Tomás e eu mal conversávamos sem brigar. O trabalho dele no escritório de advocacia em Belo Horizonte só aumentava, e eu me sentia cada vez mais sozinha em nosso apartamento apertado.
Naquela noite, depois do jantar simples — arroz, feijão tropeiro e frango caipira —, sentei na varanda com a bisa. Tomás ficou dentro, mexendo no celular.
— Ele tá diferente, né? — perguntou Mariquinha, com aquela sabedoria de quem já viu muita coisa.
— A gente tá diferente, Bisa. Não sei mais se faz sentido… — confessei, com lágrimas nos olhos.
Ela segurou minha mão com força surpreendente.
— O amor é igual plantação. Se não cuida, seca. Mas também não adianta regar sozinho.
Fiquei pensando nisso enquanto ouvia os grilos e sentia o cheiro da terra molhada. Quando voltei para dentro, Tomás estava sentado à mesa, olhando para uma foto antiga da minha família.
— Você lembra quando a gente sonhava em ter uma casa assim? — ele perguntou, sem me olhar.
— Lembro. Mas parece que tudo ficou tão longe…
Ele suspirou.
— Catarina, eu não sei mais se a gente tá junto porque se ama ou porque tem medo de ficar sozinho.
Aquela frase me cortou como faca. Fui dormir com o peito apertado e lágrimas no travesseiro.
No dia seguinte, Mariquinha pediu para Tomás ajudá-la a buscar lenha no quintal. Eu fiquei observando pela janela: ela falando sem parar, ele ouvindo calado. Quando voltaram, ela me chamou num canto.
— Seu marido tá perdido, minha filha. Mas você também tá. Vocês precisam se achar antes de tentar achar um ao outro.
Depois do almoço, Tomás veio até mim no quintal.
— Catarina… Eu aceitei vir porque achei que ia te fazer feliz. Mas percebi que nem sei mais como fazer isso. Eu tô cansado de fingir que tá tudo bem.
Senti uma raiva súbita.
— E acha que eu não tô? Você acha que é fácil pra mim? Eu também tô cansada! Cansada de tentar conversar e você sempre fugir!
Ele passou a mão no rosto.
— Talvez seja melhor a gente dar um tempo…
O silêncio entre nós foi tão pesado quanto o céu nublado daquela tarde. Mariquinha apareceu na porta com dois copos de suco de laranja.
— Vocês dois precisam conversar direito. Não adianta fugir dos problemas. Se for pra separar, que seja olhando no olho.
Sentamos na varanda e falamos tudo o que estava entalado há meses: as mágoas pequenas e grandes, as expectativas frustradas, os sonhos abandonados pelo caminho. Choramos juntos. Pela primeira vez em muito tempo, senti que estávamos sendo sinceros um com o outro.
No domingo cedo, antes de irmos embora, Mariquinha me abraçou forte.
— Não tenha medo do fim, minha neta. Às vezes é só o começo disfarçado.
No carro, Tomás segurou minha mão por um instante.
— Eu vou procurar um lugar pra ficar por uns tempos. Acho que precisamos desse espaço pra entender o que queremos de verdade.
Assenti em silêncio. O caminho de volta pra Belo Horizonte foi longo e silencioso. Mas dentro de mim havia uma estranha sensação de alívio — como se finalmente eu pudesse respirar sem medo.
Agora escrevo essas linhas sentada na sala vazia do nosso apartamento. Sinto falta do cheiro do café da bisa, do barulho dos grilos à noite… e até das brigas com Tomás. Mas sei que preciso me reencontrar antes de tentar reconstruir qualquer coisa.
Será que todo amor precisa passar por uma tempestade dessas pra florescer? Ou às vezes é melhor deixar ir? E vocês aí do outro lado: já sentiram esse medo de recomeçar?