Simplesmente Esqueça
— Não adianta correr, Mariana! — gritou minha mãe da cozinha, enquanto eu batia a porta atrás de mim, arfando, o rosto ardendo do vento gelado. O cheiro de café recém-passado se misturava ao aroma do feijão no fogo, mas nada disso aquecia o clima entre nós. Eu larguei a mochila no chão, tirei o tênis molhado e fui direto para o sofá, puxando o cobertor até o queixo.
O inverno em Curitiba parecia mais cruel naquele ano. Não só por causa do frio que entrava pelas frestas das janelas velhas do nosso apartamento alugado, mas pelo silêncio que se instalou em casa desde que meu pai saiu. Fazia três meses que ele tinha ido embora — três meses desde que ouvi pela última vez sua risada ecoando pela sala, ou sua voz me chamando para ver um filme na TV. Agora, só restava minha mãe, Ana Paula, com seus olhos cansados e as palavras presas na garganta.
Ela colocou uma xícara de chá com limão na mesa de centro, sem me olhar nos olhos. — Toma, antes que esfrie — disse, a voz baixa, quase um sussurro. Eu agradeci num fio de voz e tentei me concentrar no calor da bebida, mas o gosto amargo do limão parecia combinar com tudo que eu sentia.
— Você falou com seu pai hoje? — ela perguntou, tentando soar casual, mas eu percebi o tremor na voz dela.
— Não — respondi rápido demais. — Ele tá ocupado.
Na verdade, eu tinha mandado mensagem mais cedo, perguntando se ele vinha me ver no fim de semana. Ele respondeu só com um emoji de joinha. Meu coração apertou. Antes da separação, ele nunca esquecia nossos sábados juntos: pipoca, filme antigo e risadas até tarde. Agora, tudo era incerto.
Minha mãe suspirou fundo e se sentou na poltrona em frente ao sofá. Ficamos assim por alguns minutos, cada uma perdida nos próprios pensamentos. O relógio da parede fazia um tic-tac irritante. Eu queria gritar, perguntar por que tudo tinha que ser tão difícil, por que ela não podia simplesmente esquecer o que aconteceu e seguir em frente.
Mas eu sabia que não era tão simples.
Na escola, meus colegas cochichavam quando eu passava. A maioria deles morava com os pais juntos; poucos entendiam o que era dividir finais de semana entre duas casas ou fingir que estava tudo bem quando não estava. Minha melhor amiga, Camila, tentava me animar: — Mari, vamos sair sábado? Tem show de banda cover lá no Largo da Ordem! — Mas eu sempre inventava desculpas. Não queria sair, não queria ver ninguém. Só queria que as coisas voltassem ao normal.
Uma noite dessas, ouvi minha mãe chorando no quarto. A porta estava entreaberta e vi ela sentada na cama, olhando uma foto antiga: nós três sorrindo na praia de Matinhos, meu pai com o braço em volta dela. Senti uma raiva estranha — não dela, mas da situação toda. Por que ele foi embora? Por que ela não lutou mais? Por que ninguém me perguntou o que eu queria?
No domingo seguinte, meu pai finalmente apareceu. Chegou atrasado, como sempre ultimamente, com um sorriso meio sem graça e uma sacola de pão de queijo da padaria da esquina.
— E aí, Mari? Pronta pra passear? — tentou soar animado.
Eu assenti em silêncio. No carro dele, tentei puxar assunto:
— Você vai voltar pra casa algum dia?
Ele desviou o olhar para o trânsito.
— Não sei, filha… Às vezes as coisas mudam e a gente precisa aprender a lidar.
Fiquei olhando pela janela enquanto as ruas passavam rápido demais. Queria perguntar se ele ainda amava minha mãe, se ele ainda me amava igual antes. Mas fiquei calada.
Na volta pra casa, vi minha mãe pela janela da cozinha lavando louça. Ela enxugou as mãos no pano de prato e me olhou com aquele olhar de quem quer abraçar mas não sabe se pode.
— Como foi com seu pai? — perguntou baixinho.
— Normal — respondi.
Ela assentiu e voltou para a pia. Eu subi pro quarto e chorei baixinho no travesseiro.
Os dias foram passando assim: escola, casa silenciosa, finais de semana divididos entre dois mundos que pareciam não se encaixar mais. Comecei a tirar notas baixas em matemática; a professora chamou minha mãe para conversar.
— Mariana está distraída ultimamente — disse Dona Lúcia. — Alguma coisa aconteceu em casa?
Minha mãe hesitou antes de responder:
— Estamos passando por um momento difícil…
Saí da sala antes que elas pudessem continuar. Não queria ser motivo de pena.
Em casa naquela noite, minha mãe sentou na beira da minha cama.
— Mari… Eu sei que tá difícil pra você também. Eu sinto muito.
Olhei pra ela pela primeira vez em semanas sem raiva nos olhos.
— Por que vocês não tentaram mais? Por que não pensaram em mim?
Ela respirou fundo e segurou minha mão.
— Às vezes amar também é saber a hora de deixar ir. Eu juro que tentei… Mas não dava mais pra viver daquele jeito. E você merece ver a gente feliz, mesmo separados.
Chorei no colo dela como quando era criança. Pela primeira vez desde a separação, senti um pouco de alívio.
Aos poucos fomos aprendendo a conviver com a ausência do meu pai em casa. Minha mãe voltou a sorrir de vez em quando; eu aceitei sair com Camila para tomar sorvete no parque. Não era fácil — ainda doía quando via famílias inteiras juntas na rua ou quando meu pai esquecia algum compromisso comigo. Mas comecei a entender que nem sempre as coisas são como a gente quer.
Hoje faz quase um ano desde aquele inverno gelado. Ainda sinto falta do tempo em que éramos uma família completa, mas aprendi a valorizar os momentos bons com minha mãe e até com meu pai, mesmo que separados.
Às vezes me pergunto: será que algum dia vou conseguir simplesmente esquecer tudo isso? Ou será que certas dores ficam pra sempre com a gente?