Entre o Passado e o Agora: O Recomeço de Natalia
— É só impressão minha ou a gente tá junto de novo? — perguntei, minha voz quase sumindo no silêncio do quarto. Adam olhou pra mim, os olhos castanhos cheios daquele mistério que sempre me fez perder o chão. Ele não respondeu. Só passou o braço em volta dos meus ombros e me puxou pra perto, como se o gesto dissesse tudo o que as palavras não conseguiam.
Eu queria acreditar que era real, que depois de tantas idas e vindas, finalmente tínhamos nos encontrado de novo. Mas no fundo, uma voz insistente sussurrava que eu estava me enganando. Que era só mais uma recaída, mais um capítulo repetido da nossa novela particular.
Na manhã seguinte, acordei com a luz invadindo o quarto e o cheiro de café vindo da cozinha. Adam já tinha saído. No lugar dele, um vazio conhecido. Peguei o celular e vi a mensagem da Kasia: “Natalka, chega de sofrer. Vem pra cá hoje. Preciso te mostrar uma coisa.”
Kasia era minha âncora. Desde a faculdade, ela sempre soube quando eu estava prestes a afundar. Cheguei no apartamento dela e encontrei-a rodopiando na frente do espelho, experimentando uma calça jeans nova.
— E aí? Ficou boa? — ela perguntou, virando-se pra mim com um sorriso largo.
— Tá linda, como sempre — respondi, tentando sorrir de volta.
Ela percebeu na hora que algo estava errado. Largou a calça, sentou ao meu lado no sofá e segurou minha mão.
— Natália, você precisa se cuidar. Esse negócio com o Adam tá te destruindo. Por que você não viaja? Vai pra praia, pro interior… sei lá! Se dá uma chance de respirar outro ar.
— Não é tão simples assim — murmurei, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
— É sim! Você só precisa querer. Olha pra você… — Ela puxou meu rosto pra cima. — Você merece ser feliz, Nat.
A verdade é que eu não sabia mais o que era felicidade. Desde que meus pais se separaram quando eu tinha quinze anos, aprendi a viver esperando pelo pior. Minha mãe dizia que amor era sofrimento. Meu pai sumiu no mundo com outra mulher e nunca mais deu notícias. Cresci achando que todo relacionamento era feito de dor e abandono.
Adam apareceu na minha vida como um furacão. No começo era tudo paixão, promessas e planos mirabolantes. Mas logo vieram as brigas, as desconfianças, as idas e vindas. Eu sempre voltava porque achava que era isso mesmo: amar era aguentar até doer.
Naquela noite, depois de conversar com Kasia, fui pra casa pensando em tudo que ela disse. Sentei na varanda do meu apartamento em Belo Horizonte e fiquei olhando as luzes da cidade. Peguei uma cerveja na geladeira e liguei pra minha mãe.
— Mãe… você acha que eu tô repetindo seus erros?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder:
— Filha, cada um tem seu caminho. Mas não precisa carregar minhas dores como se fossem suas.
Desliguei sentindo um peso estranho no peito. Será que eu estava presa num ciclo sem fim?
No dia seguinte, Adam apareceu na minha porta com um buquê de flores do campo.
— Me desculpa por ontem — ele disse, os olhos baixos. — Eu sou ruim com palavras… mas eu te amo, Natália.
Eu queria acreditar nele. Queria muito. Mas algo dentro de mim gritava por liberdade.
— Adam… a gente não pode continuar assim. Eu preciso de tempo pra mim.
Ele ficou parado ali, segurando as flores como se fossem um escudo contra tudo que eu estava dizendo.
— Você vai me deixar?
— Não é sobre te deixar… é sobre me encontrar.
Ele saiu sem olhar pra trás. Fechei a porta e desabei no chão da sala. Chorei tudo que tinha direito até não sobrar mais nada.
Nos dias seguintes, tentei seguir o conselho da Kasia. Procurei passagens baratas pra qualquer lugar longe dali. Acabei comprando uma ida pra Paraty, litoral do Rio de Janeiro. Nunca tinha viajado sozinha antes. O medo era quase tão grande quanto a vontade de fugir.
Cheguei em Paraty numa sexta-feira chuvosa. A cidade parecia saída de um sonho: ruas de pedra molhada, casas coloridas e cheiro de mar misturado com café fresco vindo das padarias.
No hostel onde fiquei hospedada, conheci gente do Brasil inteiro: uma galera do Recife animada demais pro meu gosto naquele momento; uma senhora de Porto Alegre que viajava sozinha desde que ficou viúva; um casal de São Paulo brigando por causa do roteiro do dia seguinte.
Na primeira noite sentei sozinha na praia, ouvindo o barulho das ondas e pensando em tudo que deixei pra trás. Senti saudade do Adam, da Kasia, até da minha mãe reclamando da vida pelo telefone.
No segundo dia conheci Rafael, um carioca que trabalhava como guia turístico na cidade. Ele me convidou pra fazer um passeio de barco pelas ilhas próximas.
— Você parece meio perdida — ele disse enquanto ajeitava os remos.
— Tô tentando me encontrar — respondi com um sorriso tímido.
Durante o passeio conversamos sobre tudo: música brasileira, política, sonhos frustrados e amores mal resolvidos.
— Sabe qual é o problema da gente? — ele disse olhando pro horizonte — A gente tem medo de ser feliz porque acha que não merece.
A frase ficou ecoando na minha cabeça pelo resto do dia.
Nas semanas seguintes fui me soltando aos poucos. Aprendi a andar sozinha pelas ruas históricas de Paraty, a pedir comida num restaurante sem sentir vergonha, a conversar com estranhos sem medo do julgamento.
Rafael virou amigo — só amigo mesmo — mas foi importante pra eu perceber que existia vida além dos meus dramas pessoais.
Quando voltei pra Belo Horizonte, senti que algo tinha mudado dentro de mim. Fui direto encontrar Kasia no barzinho onde sempre íamos depois do trabalho.
— E aí? Como foi?
— Libertador — respondi sorrindo pela primeira vez em meses.
Ela me abraçou forte e pediu duas caipirinhas pra comemorar meu recomeço.
Adam tentou me procurar algumas vezes depois disso. Mandou mensagens, ligou, apareceu no meu prédio. Mas dessa vez fui firme: expliquei que precisava seguir sozinha por um tempo, sem prometer nada pra ninguém além de mim mesma.
Minha mãe ficou surpresa com minha decisão. Disse que nunca imaginou ver a filha dela tão corajosa.
Hoje olho pra trás e vejo quanto tempo perdi tentando consertar algo que já estava quebrado há muito tempo. Aprendi que amor próprio não é egoísmo — é sobrevivência.
Às vezes ainda sinto falta do Adam, das nossas conversas madrugada adentro ou dos domingos preguiçosos assistindo futebol na TV. Mas agora sei que posso ser feliz sozinha também.
Será que todo mundo precisa passar por uma tempestade pra aprender a se amar? Ou será que existe um jeito menos doloroso de recomeçar? E você… já teve coragem de se escolher primeiro?