Quando a doença separa: o drama de Ana e sua família

— Ana, você pode trazer meu remédio? — a voz da minha mãe ecoa fraca do quarto, mas carrega uma urgência que me faz largar a xícara de chá frio na pia.

Meus dedos tremem. Não sei se é pelo cansaço ou pela raiva que tento esconder. Desde que Dona Lourdes ficou doente, há quase um ano, minha vida virou de cabeça para baixo. Eu, Ana Paula, 38 anos, professora da rede pública, mãe solteira de dois filhos pequenos, agora também sou enfermeira em tempo integral. E tudo isso num apartamento apertado em São Gonçalo, onde cada parede parece ouvir nossos gritos abafados e nossas lágrimas silenciosas.

Entro no quarto com o remédio na mão. Minha mãe está deitada, pálida, tossindo sem parar. O cheiro de remédio misturado com o de mofo me embrulha o estômago. Ela me olha com aqueles olhos que já foram tão vivos e agora só pedem ajuda.

— Você demorou, Ana — ela reclama, como sempre.

— Desculpa, mãe. Eu estava preparando o almoço das crianças — respondo, tentando manter a calma.

Ela vira o rosto para a parede. Sei que está magoada. Sei também que não é culpa dela. A doença tirou dela até a paciência. Mas eu também estou no meu limite.

Meu irmão, Rafael, mora em Niterói. Liga uma vez por semana, pergunta como ela está e promete vir no fim de semana. Mas sempre aparece um compromisso mais importante: o trabalho, a esposa, os filhos. Sobra tudo pra mim. Sempre sobrou.

Naquela tarde chuvosa de novembro, enquanto lavo a louça e escuto minha mãe tossindo no quarto, sinto uma raiva profunda do meu irmão. Pego o celular e mando uma mensagem:

“Rafael, não aguento mais sozinha. Você precisa vir ajudar.”

Ele visualiza e responde rápido:

“Eu sei, Ana. Mas essa semana tá impossível. Prometo que semana que vem eu vou.”

Promessas vazias. Sempre as mesmas.

As crianças chegam da escola correndo, trazendo um pouco de alegria para dentro de casa. Mas logo percebem o clima pesado e se recolhem no quarto. Meu filho mais velho, Lucas, de 10 anos, me pergunta baixinho:

— Mãe, a vovó vai morrer?

Sinto um nó na garganta. Não sei o que responder. Não quero mentir, mas também não quero assustá-lo.

— Ela está doente, filho. Mas estamos cuidando dela — digo, tentando sorrir.

À noite, depois de dar banho na minha mãe e colocar as crianças para dormir, sento sozinha na varanda minúscula do apartamento. Olho para o céu nublado e penso em como minha vida mudou desde que a doença entrou em casa. Antes eu reclamava da rotina cansativa de professora e mãe solteira. Agora daria tudo para voltar àquele tempo.

Lembro das brigas com minha mãe quando eu era adolescente. Ela sempre foi dura comigo, exigente demais. Dizia que eu precisava ser forte porque a vida não dava moleza para mulher pobre. Hoje entendo o que ela queria dizer. Mas às vezes queria poder ser fraca também.

No fim de semana seguinte, Rafael finalmente aparece. Chega com cara de quem está fazendo um grande favor.

— E aí, Ana? Como estão as coisas?

— Do mesmo jeito de sempre — respondo seca.

Ele entra no quarto da nossa mãe e fica lá por dez minutos. Sai dizendo:

— Ela está muito abatida… Você tem dado os remédios certinho?

Sinto vontade de gritar.

— Você acha que eu não faço nada aqui? Você acha que é fácil cuidar dela sozinha?

Ele levanta as mãos em sinal de paz.

— Calma, Ana… Eu só perguntei.

— Não! Você nunca só pergunta! Você sempre insinua que eu não faço direito! — minha voz sai alta demais e as crianças aparecem na porta assustadas.

Rafael suspira e diz:

— Eu não posso largar tudo em Niterói pra ficar aqui direto…

— E eu posso? Eu também tenho filhos! Tenho trabalho! Mas alguém tem que cuidar dela!

O silêncio pesa entre nós. Ele abaixa a cabeça e diz:

— Desculpa… Eu vou tentar vir mais vezes.

Mas sei que não vai.

Depois desse dia, nossa relação ficou ainda mais fria. Minha mãe piora a cada semana. Os médicos dizem que é questão de tempo. Eu me sinto cada vez mais sozinha.

Uma noite, depois de um acesso de tosse mais forte, minha mãe segura minha mão com força.

— Ana… Me desculpa por tudo… Por ter sido dura com você…

Meus olhos se enchem de lágrimas.

— Não fala isso agora, mãe…

— Eu só queria que você fosse forte… Mas acho que exigi demais…

Choro baixinho ao lado dela até ela adormecer.

No dia seguinte, Rafael liga cedo.

— Ana… Fica firme aí… Se precisar de alguma coisa…

Desligo sem responder. Não quero ouvir promessas vazias.

Os dias passam devagar. A doença vai levando minha mãe aos poucos e levando junto pedaços de mim mesma que eu nem sabia que existiam. Sinto raiva do meu irmão, do sistema público de saúde que demora pra atender, dos vizinhos que só olham com pena mas não ajudam em nada.

Mas também sinto culpa por sentir raiva. Sinto culpa por às vezes desejar que tudo acabe logo pra eu poder respirar de novo sem esse peso no peito.

Na última noite da minha mãe em casa, ela me chama baixinho:

— Ana… Obrigada por tudo…

Beijo sua testa e choro como criança.

Depois do enterro, Rafael me abraça forte pela primeira vez em anos.

— Me perdoa por não ter estado mais presente…

Não respondo nada. Só choro em silêncio.

Hoje a casa está vazia. As crianças brincam no quarto e eu sento na cozinha com uma xícara de chá frio nas mãos. Olho para fora e penso: será que fiz tudo certo? Será que algum dia vou conseguir perdoar meu irmão? Ou pior: será que algum dia vou conseguir me perdoar?