O Espelho do Tempo: Uma História de Encontros e Reflexos
— Dona Patrícia, vai descer agora ou vai esperar o próximo ponto?
A voz rouca do motorista me arrancou do transe. Eu estava ali, parada na porta do ônibus 431, sentindo o suor escorrer pelas costas mesmo com o frio da manhã paulistana. Olhei para ele, tentando entender por que aquele rosto me parecia tão familiar, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante.
— Desculpa, moço… — murmurei, meio sem jeito, ajeitando a bolsa no ombro. — Pode seguir.
Ele sorriu de canto, um sorriso cansado, e fechou a porta. Sentei na primeira fileira, ainda tentando decifrar aquela sensação estranha. Foi então que vi o crachá pendurado no peito dele: “Carlos Eduardo da Silva”. Meu coração disparou. Não podia ser. Carlos Eduardo? O Dudu? Meu melhor amigo da escola, aquele que dividia o lanche comigo quando eu esquecia em casa, que me defendia dos meninos mais velhos na quadra? Agora ali, dirigindo um ônibus lotado na Zona Leste?
Fiquei olhando para ele pelo retrovisor. Ele percebeu e, por um instante, nossos olhos se encontraram. Vi um brilho de reconhecimento, mas também um cansaço profundo, como se a vida tivesse passado por cima dele sem pedir licença.
O ônibus seguia seu caminho entre buracos e buzinas. As pessoas reclamavam do atraso, do calor, do preço da passagem. Eu só conseguia pensar em como o tempo era cruel. Será que eu também estava assim? Tão diferente do que fui um dia? Peguei o celular e abri a câmera frontal. Olheiras fundas, cabelos brancos disfarçados na pressa com tinta barata, rugas finas ao redor dos olhos. Suspirei.
Lembrei da última vez que vi Dudu: era uma tarde de sexta-feira, estávamos sentados no muro da escola estadual conversando sobre o futuro. Ele queria ser engenheiro, construir casas para a mãe dele sair do aluguel. Eu queria ser jornalista, viajar pelo Brasil contando histórias de gente comum. Rimos tanto naquele dia… E depois a vida aconteceu: meu pai perdeu o emprego, precisei trabalhar cedo numa padaria para ajudar em casa. Dudu sumiu depois que o pai dele foi preso por roubo. Nunca mais nos falamos.
O ônibus parou bruscamente. Uma senhora reclamou:
— Ô motorista! Quer derrubar a gente?
Dudu pediu desculpas, mas percebi que ele tremia levemente. O trânsito estava caótico por causa de uma manifestação dos professores na Radial Leste. Olhei para fora e vi faixas pedindo salários dignos e respeito. Senti uma pontada de vergonha: eu também tinha sonhos grandes e agora estava ali, indo para mais um dia de trabalho num escritório abafado onde ninguém sabia meu nome direito.
Quando chegou meu ponto, hesitei antes de descer. Fui até a catraca e parei ao lado dele.
— Dudu?
Ele me olhou surpreso.
— Patrícia? Caramba… — Ele riu nervoso. — Achei que nunca mais ia te ver.
— Eu também… — sorri tímida. — Você tá bem?
Ele deu de ombros.
— Tô levando. E você?
— Também… levando.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Atrás de mim, alguém bufou impaciente.
— Desculpa — falei rápido. — Quem sabe a gente se encontra pra conversar?
Ele assentiu, anotou meu número num papel amassado e me entregou com mãos trêmulas.
Desci do ônibus com o coração apertado. O resto do dia foi um borrão: reuniões vazias, cobranças do chefe, mensagens da minha mãe reclamando das contas atrasadas. Mas minha cabeça estava presa naquele encontro improvável.
À noite, em casa, sentei na cama e olhei para as fotos antigas guardadas numa caixa de sapato. Lá estávamos nós: eu e Dudu sorrindo com uniformes azuis desbotados, cabelos desgrenhados pelo vento da quadra. O tempo tinha passado para nós dois — e não foi gentil.
Na semana seguinte, Dudu me mandou mensagem:
“Oi, Patrícia. Quer tomar um café sábado?”
Aceitei sem pensar duas vezes.
Nos encontramos numa padaria simples perto do metrô Artur Alvim. Ele chegou antes de mim, já sentado com um pingado e um pão na chapa.
— Senta aí — disse ele sorrindo.
Conversamos por horas sobre tudo: família, trabalho, sonhos frustrados. Ele contou que nunca conseguiu fazer faculdade porque precisou sustentar a mãe e os irmãos depois que o pai foi preso. Trabalhou de servente de pedreiro, depois virou motorista de ônibus porque pagava melhor.
— E você? — perguntou ele.
— Ah… virei secretária num escritório de advocacia. Não era o que eu queria, mas paga as contas.
Ele riu triste.
— A vida é dura pra gente que nasce desse lado da cidade.
Ficamos em silêncio olhando o movimento da rua: crianças brincando descalças na calçada, vendedores ambulantes gritando ofertas de balas e chicletes.
— Sabe o que é pior? — disse ele baixinho. — Às vezes olho no espelho e não reconheço quem eu sou mais.
Senti vontade de chorar. Eu também me sentia assim todos os dias.
Nos despedimos com um abraço apertado. No caminho pra casa pensei em como a vida nos molda sem pedir permissão — e como é fácil julgar os outros sem saber das batalhas que cada um enfrenta.
Naquela noite sonhei com a escola antiga: eu correndo pela quadra atrás do Dudu, rindo alto como se nada pudesse nos parar.
Acordei com lágrimas nos olhos e uma pergunta martelando na cabeça:
Será que algum dia vamos conseguir nos olhar no espelho e reconhecer quem realmente somos? Ou estamos todos apenas sobrevivendo às marcas invisíveis do tempo?