O Retorno de Lidiane: Entre o Amor e o Arrependimento

— Se eu bater, será que ele vai abrir? — pensei, sentindo o suor escorrer pela palma da mão que segurava a alça da bolsa. O corredor do prédio antigo em Vila Isabel cheirava a mofo e lembranças. Fazia dois anos e meio que eu não pisava ali, desde aquela noite em que saí batendo a porta, gritando que merecia mais do que Wellington podia me dar.

Na época, eu estava cega. Paixão? Não. Ambição. Paixão era o que Wellington sentia por mim, aquele amor calmo, paciente, de quem espera a chuva passar para ver o sol nascer. Mas eu queria tempestade. Queria o carro novo do Paulo Henrique, os jantares caros na Zona Sul, as viagens para Búzios postadas no Instagram. Paulo Henrique era amigo do Wellington desde moleque, mas nunca foi como ele. Tinha dinheiro, sorriso fácil e promessas doces. Eu caí feito patinha.

— Você vai se arrepender, Lidi — Wellington disse naquela noite, com os olhos marejados. — Dinheiro não compra amor.

Eu ri. Ri alto, como se soubesse de tudo. Saí dali com uma mala pequena e um coração cheio de expectativas. Paulo Henrique me recebeu de braços abertos no apartamento dele em Botafogo. No começo era tudo festa: vinho chileno, presentes caros, selfies sorridentes. Mas logo as festas acabaram e o vinho virou cerveja quente na varanda enquanto ele respondia mensagens no WhatsApp sem me olhar nos olhos.

A primeira traição veio rápido, mas eu fingi não ver. A segunda doeu mais, porque foi com uma amiga minha da faculdade. Quando confrontei Paulo Henrique, ele riu:

— Você queria vida boa, não foi? Então para de reclamar.

Eu chorei sozinha no banheiro, olhando para o reflexo de uma mulher que já não reconhecia. Liguei para minha mãe em Madureira, mas ela só disse:

— Filha, você fez sua escolha. Agora aguenta.

Aguentei até não aguentar mais. Quando Paulo Henrique me expulsou do apartamento porque “precisava de espaço”, voltei para casa da minha mãe com a cara lavada e a alma suja de arrependimento. Passei meses tentando juntar os cacos: arrumei um emprego de vendedora numa loja de roupas populares no Méier e evitava passar perto de Vila Isabel para não esbarrar com Wellington.

Mas toda noite sonhava com ele. Com o cheiro do café passado na hora, com as risadas vendo novela juntos no sofá apertado, com os planos simples de construir uma vida digna. Senti falta até das brigas por causa da conta de luz ou do arroz queimado.

Hoje estou aqui, parada na frente da porta dele. O coração bate tão forte que parece querer sair pela boca. Penso em ir embora, mas meus pés não obedecem. Respiro fundo e toco a campainha.

O barulho ecoa pelo corredor vazio. Ouço passos lentos se aproximando. A porta se abre devagar e vejo Wellington parado ali, mais magro, cabelo um pouco grisalho nas têmporas, mas com o mesmo olhar doce.

— Lidiane? — ele diz, surpreso.

— Oi… — minha voz falha. — Posso entrar?

Ele hesita por um segundo eterno antes de abrir espaço para mim passar. Entro devagar, sentindo o cheiro familiar do feijão na panela e do sabão em pó barato.

— O que você quer aqui? — ele pergunta, sem raiva, só cansaço.

— Eu… errei muito, Wellington. Achei que ia ser feliz com o Paulo Henrique, mas só me ferrei. Sinto falta de você… da nossa vida… — as lágrimas escorrem sem controle.

Ele suspira fundo e senta no sofá.

— Você sabe que depois que você foi embora minha mãe ficou doente? Eu tive que largar meu emprego pra cuidar dela. Passei aperto pra pagar as contas… E você? Nem uma mensagem.

Sinto uma pontada no peito.

— Eu fui egoísta… Só pensei em mim… — digo baixinho.

O silêncio pesa entre nós. Ele olha pra janela como se buscasse respostas no céu nublado.

— Por que agora? — ele pergunta.

— Porque percebi que felicidade não é carro novo nem viagem pra praia. É ter alguém do lado quando tudo desaba… E eu queria saber se você ainda consegue me perdoar…

Ele fecha os olhos por um instante longo demais.

— Não sei, Lidiane… Não sei mesmo… — diz ele, a voz embargada.

Ficamos ali sentados, cada um preso nos próprios arrependimentos. O tempo parece parar enquanto escuto o barulho distante dos ônibus passando na rua.

De repente, a porta se abre novamente e entra Dona Célia, mãe do Wellington, apoiada numa bengala.

— Quem é essa aí? — ela pergunta desconfiada.

— É a Lidiane, mãe…

Dona Célia me encara com olhos duros.

— Ah… voltou pra ver se sobrou alguma coisa pra pegar?

Sinto o rosto arder de vergonha.

— Não, Dona Célia… Só queria pedir desculpa…

Ela balança a cabeça e vai pra cozinha resmungando:

— Desculpa não enche barriga…

Wellington me olha com tristeza e um pouco de pena.

— Você pode ficar pra almoçar… Se quiser — diz ele baixinho.

Aceito com um nó na garganta. Sentamos à mesa em silêncio enquanto Dona Célia serve o feijão ralo e o arroz grudado na panela velha. Cada colherada pesa como uma sentença.

Depois do almoço, ajudo a lavar a louça em silêncio. Sinto vontade de abraçar Wellington e dizer que nunca mais vou embora, mas não tenho coragem.

Na hora de ir embora, paro na porta e olho pra ele:

— Eu ainda te amo…

Ele não responde. Só abaixa a cabeça.

Desço as escadas sentindo o peso do mundo nas costas. Lá fora começa a chover forte e eu fico parada sob a marquise do prédio pensando em tudo que perdi por causa da minha vaidade.

Será que mereço uma segunda chance? Será que amor verdadeiro resiste ao tempo e aos erros? Ou certas portas nunca mais se abrem pra gente?