Entre a Chuva e o Silêncio: O Diário de Mariana
“Você não entende, pai! Eu não sou a mamãe!”
Minha voz ecoou pelo corredor estreito do nosso apartamento em Osasco, abafada apenas pelo barulho da chuva fina batendo na janela. O cheiro de café requentado se misturava ao odor forte de cigarro que impregnava as paredes. Meu pai, sentado à mesa com a cabeça entre as mãos, não respondeu. Só o som do copo batendo na madeira denunciava sua presença.
Eu estava encharcada, os cabelos grudados no rosto, a mochila pesando nas costas. Tinha acabado de chegar da escola, desviando das poças e do barro que se acumulava na calçada. Cada passo era um esforço para não escorregar, para não cair — mas, por dentro, eu já estava em pedaços há meses.
Desde que minha mãe morreu, tudo ficou suspenso no tempo. Meu pai se perdeu em si mesmo, minha irmãzinha Ana passou a dormir na minha cama todas as noites, e eu… eu virei adulta antes da hora. Tinha só dezessete anos, mas sentia como se carregasse o mundo nas costas.
“Mariana, você precisa ajudar mais aqui em casa”, ele murmurou, sem me olhar. “A Ana sente sua falta.”
“Eu também sinto falta dela! Mas ninguém pergunta como eu estou!”
O silêncio caiu pesado entre nós. Fui para o quarto e fechei a porta com força. Ana estava sentada na cama, abraçando o ursinho de pelúcia que mamãe tinha costurado pra ela. Seus olhos grandes me encararam cheios de perguntas mudas.
“Tá tudo bem, Mari?”
Sentei ao lado dela e puxei-a para um abraço apertado. “Vai ficar, pequena. Prometo.”
À noite, quando tudo silenciou e só se ouvia o gotejar da chuva no telhado, abri meu diário — aquele caderno velho de capa azul que mamãe me deu no meu aniversário de quinze anos. Escrevi:
“Querido diário,
Hoje quase escorreguei no barro voltando pra casa. Senti raiva dos meus sapatos de salto, mas senti mais raiva ainda desse vazio que não passa. Sinto falta da mamãe. Sinto falta de mim mesma.”
Na escola, as coisas não eram melhores. As amigas se afastaram aos poucos — ninguém sabia lidar com a tristeza dos outros. Só a Camila ainda tentava puxar conversa no intervalo.
“Você vai no aniversário da Bia?”
“Não sei… Não tô muito no clima.”
Ela suspirou. “Mari, você precisa sair um pouco. Não pode viver só pra sua irmã.”
Mas como explicar que eu era tudo o que a Ana tinha? Que meu pai mal conseguia olhar pra gente sem chorar ou gritar? Que toda noite eu tinha medo de ele não voltar do bar?
Naquela sexta-feira, cheguei em casa e encontrei Ana chorando na cozinha. O arroz queimava na panela e o cheiro amargo se espalhava pelo ar.
“O papai não veio buscar a gente na escola”, ela soluçou.
Meu coração disparou. Peguei o telefone e liguei para ele — nada. Liguei para o celular do trabalho — desligado.
Sentei no chão com Ana no colo e chorei junto com ela. Pela primeira vez desde o enterro da mamãe, deixei as lágrimas caírem sem vergonha.
Naquela noite, escrevi:
“Querido diário,
Hoje senti medo de verdade. Medo de perder mais alguém. Medo de não dar conta.”
No sábado de manhã, meu pai apareceu em casa com os olhos vermelhos e a barba por fazer. Trazia um saco de pão e um litro de leite.
“Desculpa”, murmurou, sem encarar nenhuma de nós.
Eu queria gritar, queria bater nele até ele acordar pra vida. Mas só consegui perguntar:
“Por quê?”
Ele sentou na cadeira da cozinha e chorou como uma criança. Ana correu pro quarto assustada. Eu fiquei ali, parada, sentindo uma mistura de raiva e pena.
“Eu não sei ser pai sozinho”, ele disse baixinho.
“Eu também não sei ser mãe”, respondi.
O tempo foi passando e as coisas não melhoraram muito. A rotina era sempre a mesma: escola, casa, cuidar da Ana, tentar estudar pro vestibular à noite enquanto meu pai dormia no sofá com a TV ligada em algum programa policial.
Um dia, Camila apareceu lá em casa com uma caixa de bombons e um convite:
“Vamos ao parque amanhã? Só eu, você e a Ana.”
Aceitei sem pensar muito — talvez porque precisava desesperadamente de um pouco de ar fresco.
No parque Villa-Lobos, Ana correu atrás dos pombos enquanto eu e Camila sentamos na grama.
“Você já pensou em pedir ajuda pra alguém? Psicólogo, assistente social…”
Balancei a cabeça. “Meu pai nunca aceitaria.”
“E você? Você aceitaria?”
Fiquei em silêncio. Nunca tinha pensado nisso — sempre achei que precisava ser forte por todo mundo.
Naquela noite, escrevi:
“Querido diário,
Será que pedir ajuda é sinal de fraqueza? Ou é coragem?”
Os meses passaram devagar. Meu pai começou a ir menos ao bar depois do trabalho — às vezes até jantava com a gente. Ana voltou a sorrir aos poucos. Eu consegui passar no vestibular para Letras na USP — minha mãe ficaria tão orgulhosa…
No dia da matrícula, meu pai me abraçou pela primeira vez desde o enterro.
“Desculpa por tudo, filha.”
Chorei no ombro dele como uma criança perdida.
Hoje escrevo essas linhas olhando pela janela do ônibus lotado que me leva até a faculdade. A chuva ainda cai fina sobre São Paulo, mas já não sinto tanto frio por dentro.
Será que um dia a saudade deixa de doer? Ou a gente só aprende a conviver com ela?
E vocês? Já sentiram esse vazio? Como fizeram pra seguir em frente?