Enquanto a Luz da Varanda Brilhar
— Se você sair agora, não precisa mais voltar! — gritou minha mãe, a voz embargada ecoando pelo corredor estreito do nosso prédio antigo em Osasco. Eu já estava com a mão na maçaneta, sentindo o cheiro forte de repolho cozido misturado ao fio queimado do quadro de luz, aquele aroma que grudava na pele e nos ossos, como se fosse impossível escapar do passado.
Meu nome é Mariana, tenho 32 anos, e naquela noite tudo parecia prestes a desmoronar. Minha mãe, Dona Zuleide, sempre foi o pilar da nossa família — dura como pedra, mas com um brilho nos olhos que só quem já perdeu muito consegue carregar. Ela segurava uma vela acesa na mão esquerda e o boleto da conta de luz na direita. O dinheiro não dava para tudo: ou pagava a luz ou comprava comida para o mês.
— Mãe, eu só vou ali na esquina conversar com o Rafael. Preciso respirar um pouco — tentei argumentar, mas ela já estava trancando a porta por dentro.
O cheiro da escada era o mesmo de quando eu era criança: repolho cozido vindo do apartamento da Dona Cida do 302 e aquele toque metálico do fio velho queimando devagar. Lembro das noites em que eu e meus irmãos brincávamos de esconde-esconde no corredor, rindo alto enquanto minha mãe gritava para não fazermos barulho. Agora, só restava o silêncio e o eco dos passos solitários.
A verdade é que tudo mudou desde que meu pai morreu. Ele era eletricista e sempre dava um jeito nos fios do prédio, mesmo sem receber nada por isso. Depois que ele se foi, a energia da casa ficou mais fraca — não só a elétrica, mas aquela energia invisível que une as pessoas.
Minha irmã mais velha, Luciana, casou cedo e foi morar em Guarulhos. Meu irmão caçula, Felipe, sumiu no mundo depois de uma briga feia com minha mãe sobre política. Sobramos eu e ela: duas mulheres teimosas tentando sobreviver com pouco dinheiro e muito orgulho.
Naquela noite, sentei no degrau da escada e chorei baixinho. O Rafael apareceu logo depois, trazendo um pão doce e um café requentado.
— Mari, você não pode continuar assim. Sua mãe precisa de ajuda, mas você também precisa viver — ele disse, me olhando nos olhos como quem entende a dor sem precisar perguntar.
— Eu sei, Rafa. Mas cada vez que penso em sair daqui, sinto culpa. Como se eu estivesse abandonando ela…
Ele segurou minha mão. — Você não está abandonando ninguém. Só está tentando encontrar um pouco de felicidade pra você também.
O problema é que felicidade parecia coisa de novela das seis. Aqui no prédio, todo mundo vivia no limite: Dona Cida cuidando do neto doente sozinha; Seu Jorge do 201 vendendo balas no farol depois de perder o emprego; até a síndica, Dona Marlene, chorando escondida porque o marido foi embora com uma mulher mais nova.
Voltei para casa tarde naquela noite. Minha mãe estava sentada na varanda, olhando para a rua escura. A luz da varanda era a única acesa no prédio inteiro. Sentei ao lado dela sem dizer nada.
— Você lembra quando seu pai consertou esse poste aqui da frente? — ela perguntou de repente.
Assenti com a cabeça. Lembrava sim: ele subiu na escada improvisada com caixotes de feira e ficou lá até conseguir fazer a luz voltar. Todo mundo bateu palma quando o poste acendeu de novo.
— Ele dizia que enquanto essa luz estivesse acesa, nossa família ia ficar unida — ela continuou, a voz embargada.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. O vento frio batia no rosto e eu sentia vontade de abraçá-la, mas o orgulho era maior.
No dia seguinte, acordei cedo para procurar emprego. Fazia meses que eu mandava currículo para todo lado: padaria, supermercado, loja de roupa no centro. Nada. O Brasil não estava fácil pra ninguém. Quando voltei pra casa à tarde, encontrei minha mãe sentada à mesa com uma carta nas mãos.
— É do Felipe — ela disse baixinho.
Peguei a carta com as mãos trêmulas. Ele dizia que estava bem em Goiânia, trabalhando como entregador de aplicativo. Pedia desculpas pela briga e prometia visitar no Natal.
Minha mãe chorou baixinho enquanto eu lia em voz alta. Depois me abraçou forte — coisa rara entre nós duas.
Os dias foram passando devagar. A conta de luz venceu; ficamos dois dias no escuro até conseguir um empréstimo com a Dona Cida. A comida foi ficando mais simples: arroz com ovo, sopa de legumes quando dava sorte.
Uma noite, ouvi minha mãe rezando baixinho na varanda:
— Deus, não deixa essa luz apagar…
Senti um nó na garganta. Entendi ali que aquela luz era mais do que eletricidade: era esperança teimosa de quem já perdeu quase tudo, mas ainda acredita num recomeço.
No fim daquele mês difícil, consegui um emprego como auxiliar numa escola infantil perto de casa. Não era muito dinheiro, mas já dava pra pagar as contas básicas e comprar um pouco de carne moída pro almoço de domingo.
No primeiro salário, comprei uma lâmpada nova pra varanda e um bolo simples pra comemorar com minha mãe.
Sentamos juntas na varanda iluminada e rimos das nossas próprias desgraças — porque rir é o único jeito de não enlouquecer nesse país onde tudo parece tão difícil pra quem nasceu sem privilégio.
Às vezes ainda sinto vontade de ir embora e tentar a vida longe dali. Mas toda vez que olho praquela luz acesa na varanda penso no meu pai e nas palavras dele: enquanto houver uma luz acesa, nada está realmente perdido.
Será que um dia vou ter coragem de apagar essa luz e seguir meu próprio caminho? Ou será que esperança é isso: insistir em manter acesa uma chama pequena mesmo quando tudo ao redor parece escuro?
E você aí do outro lado — já pensou em apagar ou reacender alguma luz na sua vida?