Miséria da Alma: A História de uma Mulher Brasileira

“Sai daqui, menina! Vai arrumar alguma coisa pra fazer, não fica me olhando com essa cara de fome!” A voz rouca da minha mãe ainda ecoa na minha cabeça, mesmo depois de tantos anos. Eu devia ter uns sete anos quando ouvi isso pela primeira vez, mas a verdade é que nunca parei de ouvir. Cresci em um barraco de madeira, no meio da periferia de Recife, onde o cheiro de esgoto se misturava ao do feijão requentado e da roupa molhada que nunca secava direito. Meu nome é Rosilene, mas quase ninguém me chamava assim. Era só “ô menina”, “ô peste”, ou, quando minha mãe estava de bom humor, “Rosi”.

Meu pai, Severino, era um homem duro, calejado pelo sol e pela cachaça. Trabalhava de servente de pedreiro quando conseguia serviço, mas na maior parte do tempo estava jogado no sofá velho, reclamando da vida e xingando o governo. Minha mãe, Dona Maria, lavava roupa pra fora, mas o dinheiro nunca dava. Eu e meus três irmãos vivíamos brigando por um pedaço de pão amanhecido ou por um gole de café ralo. Lembro de uma vez, quando tinha uns nove anos, que roubei uma banana do quintal do vizinho. Minha mãe me pegou pelo braço e me arrastou pra dentro de casa, me batendo com o chinelo e gritando: “Quer virar ladra igual teu pai, é?!” Eu só queria matar a fome.

A escola era um alívio e um tormento. Gostava de aprender, de ouvir a professora Ana Paula contando histórias, mas odiava o jeito que as outras crianças riam das minhas roupas rasgadas e do meu cabelo desgrenhado. “Olha a mendiga!”, gritavam. Eu fingia que não ligava, mas cada palavra era como uma pedra no peito. Uma vez, sentei no fundo da sala e chorei baixinho, pra ninguém ver. A professora percebeu, sentou do meu lado e disse: “Você é forte, Rosilene. Não deixa ninguém te dizer o contrário.” Aquilo ficou comigo, mesmo quando tudo parecia desmoronar.

Aos doze anos, comecei a trabalhar ajudando minha mãe. Lavava roupa, limpava casa, cuidava de criança dos outros. Via as meninas da minha idade brincando na rua, mas eu não tinha tempo pra isso. O dinheiro era pouco, mas ajudava a comprar arroz e farinha. Meu pai dizia que mulher nasceu pra servir, que estudar era perda de tempo. “Vai casar logo, pra sair daqui e parar de me dar despesa”, ele falava, rindo com os amigos no bar. Eu sentia raiva, mas também medo. Medo de nunca sair dali, de virar sombra igual minha mãe.

Quando fiz quinze anos, conheci o Marcelo. Ele era bonito, tinha um sorriso fácil e dizia que ia me tirar daquela vida. No começo, me senti especial. Ele me levava pra passear na praia, comprava picolé, me chamava de princesa. Minha mãe dizia pra tomar cuidado, mas eu não queria ouvir. Queria acreditar que alguém podia me amar de verdade. Com dezesseis anos, engravidei. Marcelo sumiu. Disse que não era dele, que eu devia ter me cuidado. Fiquei sozinha, com uma barriga crescendo e o medo me consumindo.

Minha mãe ficou furiosa. “Mais uma boca pra alimentar! Tu não aprende mesmo, né, Rosilene?” Meu pai nem olhou na minha cara. Passei a gravidez lavando roupa, sentindo as dores e o peso do abandono. Quando a Ana nasceu, achei que tudo ia mudar. Olhei praquele rostinho pequeno e prometi que ela nunca ia passar pelo que eu passei. Mas promessa de pobre é igual vento: some rápido.

A vida ficou ainda mais difícil. Trabalhava o dia todo, deixava Ana com a vizinha Dona Zefinha, que cuidava de mais três crianças. Às vezes, chegava em casa e ela já estava dormindo, suja, com fome. O dinheiro mal dava pra comprar leite. Pensei em desistir, em sumir, mas olhava pra Ana e sentia uma força que não sabia que tinha. “Vai dar certo, filha. A mãe vai dar um jeito.”

Os anos passaram. Ana cresceu, linda, inteligente. Eu fazia de tudo pra ela estudar, pra não repetir minha história. Mas a vida não perdoa. Quando Ana tinha dez anos, minha mãe adoeceu. Câncer. O SUS demorou pra marcar consulta, o remédio era caro. Vendi o pouco que tinha, pedi ajuda pra vizinhança, mas não adiantou. Vi minha mãe murchar na cama, pedindo perdão pelos gritos, pelas surras. “Eu só queria que você fosse forte, Rosi. Desculpa.” Segurei sua mão até o fim, sentindo um misto de raiva e amor.

Depois que ela morreu, meu pai ficou ainda mais amargo. Bebia o dia todo, gritava com Ana, dizia que ela era igual a mim: inútil. Um dia, chegou em casa bêbado e tentou bater nela. Não pensei duas vezes: peguei Ana pela mão e saí correndo. Dormimos na casa de Dona Zefinha, depois na igreja do bairro. Passei semanas procurando trabalho, qualquer coisa. Fui faxineira, cozinheira, babá. Ana me ajudava, vendendo bala no sinal. A gente se virava como podia.

Aos poucos, consegui juntar um dinheirinho e aluguei um quartinho numa vila. Era pequeno, mas era nosso. Ana voltou pra escola, eu consegui um emprego fixo numa padaria. Trabalhava muito, mas pelo menos tinha pão todo dia. Às vezes, sentava na cama e chorava de cansaço, mas olhava pra Ana dormindo e sentia esperança.

Um dia, Ana chegou em casa chorando. Tinha sido chamada de “favelada” na escola. Meu coração doeu, como doía quando eu era criança. Abracei minha filha e disse: “Você é forte, Ana. Não deixa ninguém te dizer o contrário.” Vi nos olhos dela o mesmo brilho que um dia a professora Ana Paula viu em mim.

Hoje, Ana está terminando o ensino médio. Quer fazer faculdade de enfermagem. Eu continuo trabalhando na padaria, mas agora sonho junto com ela. Às vezes, penso em tudo que passei e me pergunto: será que algum dia a vida vai ser justa pra gente como eu? Será que a gente consegue quebrar esse ciclo de miséria e dor?

Eu queria saber: quantas Rosilenes existem por aí, lutando pra sobreviver, invisíveis aos olhos do mundo? Será que um dia alguém vai ouvir nossas vozes?