Quando a doença separa uma família: o drama de Ana

— Ana, você não vai me ajudar a levantar? — a voz da minha mãe ecoa pela cozinha, rouca e impaciente, enquanto tento encontrar forças para responder. O cheiro do chá frio me enjoa, mas não tanto quanto a sensação de impotência que me consome desde que a doença dela se instalou aqui, como uma sombra que não sai nem com o sol mais forte.

Levanto devagar, tentando não demonstrar o cansaço. — Já vou, mãe. Só um minuto, por favor. — Minha voz sai baixa, quase um sussurro, mas ela não percebe. Dona Elza nunca percebe. Desde que o câncer apareceu, parece que só existe espaço para a dor dela. Eu entendo, juro que entendo, mas às vezes queria que alguém perguntasse como eu estou.

Rafael, meu irmão, está trancado no quarto. Consigo ouvir o som abafado do videogame, uma fuga que ele encontrou para não encarar a realidade. Ele diz que não aguenta ver a mãe assim, mas quem aguenta? Eu também não aguento, mas alguém precisa cuidar dela, alguém precisa pagar as contas, alguém precisa segurar a barra. E esse alguém sou eu.

— Ana, cadê o remédio? — ela grita de novo, agora mais irritada. — Você esqueceu de novo? — Sinto o peso da culpa me esmagando. Corro até o armário, pego o comprimido e um copo d’água. Ela me olha com olhos cansados, mas ainda assim duros.

— Desculpa, mãe. — Tento sorrir, mas meu rosto não obedece. Ela engole o remédio e faz uma careta.

— Isso aqui é um veneno. Não sei por que você insiste. — Ela vira o rosto para a janela, como se eu não estivesse ali. Sento ao lado dela, mas o silêncio entre nós é tão denso que quase posso tocá-lo.

Lembro de quando tudo era diferente. Antes da doença, nossa casa era cheia de risadas, cheiro de bolo de fubá e música sertaneja no rádio. Agora, só restou o eco das brigas e o medo do amanhã. Meu pai foi embora quando eu tinha doze anos, cansado das dificuldades. Desde então, sempre fui eu, minha mãe e o Rafael. Mas agora, parece que cada um está sozinho, mesmo morando junto.

— Ana, você já falou com o médico? Ele disse alguma coisa nova? — Ela pergunta, mas não olha para mim. Sei que ela tem medo da resposta, e eu também.

— Ele disse que temos que esperar os exames, mãe. — Tento ser firme, mas minha voz treme. — Vai dar tudo certo, tá?

Ela balança a cabeça, mas não acredita. Nem eu acredito, mas preciso fingir. Se eu desmoronar, quem vai segurar essa casa?

De noite, depois que ela dorme, vou até o quarto do Rafael. Bato na porta, ele demora para abrir. Quando finalmente aparece, vejo que os olhos dele estão vermelhos.

— O que foi, Ana? — Ele pergunta, tentando parecer forte.

— Você não vai nem dar boa noite pra mãe? — Pergunto, sentindo a raiva crescer dentro de mim. — Ela sente sua falta, sabia?

Ele abaixa a cabeça. — Eu não consigo, Ana. Não quero lembrar dela assim, fraca. Prefiro ficar aqui.

— E eu? Você acha que eu quero? — Minha voz sai mais alta do que eu gostaria. — Mas alguém precisa estar com ela. Você só pensa em você, Rafael!

Ele fecha a porta na minha cara. Sinto vontade de chorar, mas não posso. Não agora. Volto para a sala, olho para o sofá velho, para as fotos antigas na estante. Sinto saudade de uma vida que não existe mais.

No dia seguinte, acordo cedo para ir ao trabalho. Trabalho como caixa em um supermercado, do outro lado da cidade. Saio de casa antes do sol nascer, deixo o café pronto para minha mãe e um bilhete para o Rafael: “Cuida dela hoje, por favor.”

No ônibus lotado, olho pela janela e penso em tudo que perdi. Meus amigos se afastaram, meu namorado terminou comigo porque eu nunca tinha tempo. Minha vida virou uma rotina de remédios, consultas e contas atrasadas. Às vezes, me pergunto se algum dia vou voltar a ser feliz.

No trabalho, tento sorrir para os clientes, mas minha cabeça está longe. Penso na minha mãe, sozinha em casa, penso no Rafael, trancado no quarto. Penso em mim, presa em uma vida que não escolhi.

Quando volto para casa, encontro minha mãe chorando na cozinha. Ela segura uma carta do hospital. — Ana, eles marcaram mais exames. Eu não aguento mais isso. — Ela soluça, e eu a abraço, mesmo sem saber o que dizer.

— Vai passar, mãe. Eu prometo. — Mas eu não acredito nas minhas próprias palavras.

Rafael aparece na porta, olha para nós e, pela primeira vez em semanas, senta ao nosso lado. — Desculpa, mãe. Desculpa, Ana. Eu não sei lidar com isso. — Ele chora, e eu percebo que não sou a única cansada.

Naquela noite, jantamos juntos, em silêncio, mas juntos. Sinto que, apesar de tudo, ainda somos uma família. Uma família quebrada, mas família.

Os dias passam, e a doença da minha mãe piora. Ela precisa de mais cuidados, mais remédios, mais paciência. O dinheiro não dá, as contas se acumulam. Rafael começa a procurar trabalho, diz que quer ajudar. Pela primeira vez, sinto esperança.

Mas a esperança dura pouco. Um dia, chego em casa e encontro minha mãe caída no chão do banheiro. O desespero toma conta de mim. Corro para o hospital, Rafael chega logo depois. Esperamos horas na sala de espera, em silêncio, de mãos dadas.

O médico aparece, sério. — Ela vai precisar ficar internada. O quadro é grave. — Sinto o chão sumir sob meus pés. Rafael me abraça, e choramos juntos.

Os dias no hospital são longos. Vejo minha mãe cada vez mais fraca, mas ainda assim tentando sorrir para nós. — Vocês precisam cuidar um do outro, quando eu não estiver mais aqui. — Ela diz, com a voz baixa.

— Não fala isso, mãe. — Peço, mas ela insiste.

— Promete pra mim, Ana. Promete que vai viver sua vida, que não vai deixar a tristeza te consumir.

Eu prometo, mas não sei se vou conseguir cumprir.

Minha mãe parte numa manhã fria de junho. O vazio que ela deixa é imenso. Rafael e eu nos abraçamos, choramos, brigamos, mas aos poucos, aprendemos a cuidar um do outro. A dor nunca passa, mas a vida continua.

Hoje, sentada na mesma cozinha, segurando uma xícara de chá, penso em tudo que vivi. Será que algum dia vou conseguir ser feliz de novo? Será que minha mãe teria orgulho de mim, mesmo com todos os meus erros? Às vezes, me pergunto: quantas famílias como a minha existem por aí, lutando em silêncio, esperando por um pouco de esperança?