Quero Voltar: Entre o Silêncio e o Grito

O barulho do despertador nunca foi necessário para mim. Meu corpo já sabia a hora de levantar, como se cada célula minha tivesse sido programada para acordar antes do sol. Naquela manhã, como em todas as outras, levantei devagar, tentando não acordar Marcelo. Fui direto para o banheiro, lavei o rosto e olhei para mim no espelho. Os olhos fundos, o cabelo preso de qualquer jeito, a expressão cansada. Suspirei. “Mais um dia, Lúcia. Só mais um.”

Na cozinha, o ritual era sempre o mesmo: café forte, ovos mexidos, pão francês cortado em fatias, queijo minas e presunto. O cheiro do café fresco se espalhava pela casa, e eu me sentia invisível, como se fosse apenas uma sombra preparando tudo para os outros. Marcelo entrou, barbeado, cheiroso, com aquela camisa azul que eu mesma tinha passado na noite anterior. Ele se sentou à mesa, pegou o celular e começou a rolar as mensagens do grupo da firma. Nem um bom dia. Nem um olhar.

— O café tá forte hoje, Lúcia? — perguntou, sem levantar os olhos.

— Tá sim, do jeito que você gosta — respondi, tentando sorrir.

Ele murmurou um “hum” e continuou no celular. Sentei na ponta da mesa, com minha xícara de café e um pedaço de queijo. Não sentia fome. Só um vazio que crescia a cada manhã.

Ouvimos passos apressados no corredor. Era a Mariana, nossa filha de 17 anos, já atrasada para o cursinho. Ela entrou na cozinha, pegou uma maçã e um pedaço de pão, e saiu quase sem falar. — Tchau, mãe. Tchau, pai. — E já estava na porta.

Marcelo levantou os olhos do celular só para dizer: — Boa sorte na prova, filha.

Fiquei ali, olhando para a porta fechada, sentindo que minha família era feita de pessoas que viviam juntas, mas não se enxergavam mais. Lembrei de quando eu e Marcelo éramos jovens, quando sonhávamos juntos, quando ele me chamava de “minha luz”. Agora, eu era só Lúcia, a mulher que acorda cedo, prepara o café, lava a roupa, paga as contas e tenta manter tudo em ordem.

Depois que Marcelo saiu para o trabalho, a casa ficou em silêncio. Sentei no sofá e olhei para as paredes. As fotos antigas mostravam sorrisos que pareciam de outra vida. Eu queria voltar a sentir aquilo. Queria voltar a ser vista, a ser ouvida. Mas como? Quando foi que me perdi de mim mesma?

O telefone tocou. Era minha mãe, Dona Célia, que mora em Belo Horizonte. — Lúcia, minha filha, você tá bem? Sua voz tá diferente.

— Tô bem, mãe. Só cansada — menti.

— Você precisa se cuidar, minha filha. Não adianta cuidar de todo mundo e esquecer de você. Olha, por que você não vem passar uns dias aqui comigo? Faz tempo que não te vejo.

Pensei em recusar, mas algo dentro de mim queria fugir. Queria respirar outro ar, ouvir outras vozes. — Vou pensar, mãe. Te ligo depois.

Desliguei e fiquei olhando para o nada. O relógio marcava nove da manhã e eu já estava exausta. Resolvi sair para caminhar. No caminho, passei pela padaria do Seu Antônio, que sempre me cumprimentava com um sorriso. — Bom dia, dona Lúcia! Vai querer o de sempre?

— Hoje não, Seu Antônio. Só vim caminhar um pouco.

Ele me olhou com preocupação. — Tá tudo bem, minha filha?

— Tá sim, obrigada — respondi, mas minha voz saiu baixa, quase um sussurro.

Continuei andando, sentindo o vento no rosto, tentando lembrar quem eu era antes de tudo isso. Antes de ser só mãe, só esposa, só dona de casa. Lembrei do tempo em que eu sonhava em ser professora de literatura, em viajar pelo Brasil, em escrever um livro. Onde foi parar aquela Lúcia?

No caminho de volta, encontrei minha vizinha, Sandra, que sempre tinha uma palavra amiga. — Lúcia, você tá sumida! Vamos tomar um café qualquer dia desses?

— Vamos sim, Sandra. Eu preciso conversar, sabe? — respondi, sentindo as lágrimas ameaçando cair.

Ela me abraçou forte. — Quando quiser, minha casa tá aberta.

Cheguei em casa e sentei na cama. Peguei um caderno antigo e comecei a escrever. Escrevi sobre a solidão, sobre o silêncio, sobre a vontade de gritar. Escrevi sobre o medo de mudar e sobre o medo de continuar igual. Escrevi até minha mão doer.

Quando Marcelo chegou à noite, a casa estava arrumada, o jantar pronto, mas eu estava diferente. Ele percebeu. — Tá tudo bem, Lúcia?

Olhei nos olhos dele pela primeira vez em muito tempo. — Não, Marcelo. Não tá. Eu tô cansada. Cansada de ser invisível, de viver só para vocês. Eu preciso de um tempo pra mim. Preciso me reencontrar.

Ele ficou em silêncio, surpreso. — O que você quer fazer?

— Quero ir pra casa da minha mãe uns dias. Quero pensar na minha vida. Quero voltar a ser eu.

Ele tentou argumentar, mas eu fui firme. Pela primeira vez em anos, senti que minha voz tinha peso. Que eu existia.

Naquela noite, deitei na cama e chorei. Chorei por tudo que perdi, por tudo que deixei de ser. Mas também chorei de alívio, por finalmente ter coragem de dizer o que sentia.

No dia seguinte, arrumei uma mala pequena, deixei um bilhete para Mariana e peguei o ônibus para Belo Horizonte. No caminho, olhei pela janela e vi a cidade passando rápido, como minha vida tinha passado. Mas, dessa vez, eu estava no controle.

Minha mãe me recebeu com um abraço apertado. — Você fez o certo, minha filha. Às vezes, a gente precisa se perder pra se encontrar de novo.

Passei dias conversando com ela, caminhando pela praça, lendo livros antigos. Aos poucos, fui lembrando da Lúcia que eu era. Da Lúcia que ria alto, que sonhava, que queria mudar o mundo.

Recebi mensagens de Marcelo e Mariana. Eles estavam assustados, mas começaram a perceber que eu não era só a mulher que cuidava de tudo. Eu era alguém com sonhos, com vontades, com sentimentos.

Depois de uma semana, voltei para casa. Não sabia o que me esperava, mas sabia que não podia mais viver no automático. Sentei com Marcelo e Mariana e falei tudo o que sentia. Choramos juntos. Decidimos tentar de novo, mas de outro jeito. Com mais diálogo, mais respeito, mais amor.

Hoje, quando acordo antes do despertador, não sinto mais aquele vazio. Sinto esperança. Sinto vontade de viver. E, às vezes, me pergunto: quantas mulheres como eu estão vivendo no silêncio, esperando por um grito de liberdade? Será que você também já sentiu vontade de voltar a ser quem era?