Entre a Saudade e a Culpa: O Preço das Escolhas

— Você não vai me ligar hoje de novo, Beatriz? — sussurrei para o celular, encarando a tela escura como se dela pudesse brotar alguma resposta. O relógio marcava quase meia-noite, e o calor abafado de Juazeiro fazia o suor escorrer pelas minhas costas. O ventilador velho girava preguiçoso, espalhando mais poeira do que vento. Meu coração, esse sim, girava rápido, inquieto, como se pressentisse que algo estava prestes a desmoronar.

Beatriz, minha esposa, estava há dois anos em Portugal, trabalhando como cuidadora de idosos. Quando ela foi, juramos que era só por um tempo, que logo tudo voltaria ao normal. Mas o tempo, esse traidor, foi se arrastando, e a saudade virou rotina. No começo, as ligações eram diárias, cheias de planos e promessas. Depois, vieram os silêncios, as desculpas, o cansaço. E eu fiquei aqui, tentando segurar as pontas, cuidando da nossa filha, Ana Clara, e da casa que parecia cada vez mais vazia.

Foi numa dessas noites solitárias que conheci Camila. Ela era nova no bairro, vinte e poucos anos, sorriso fácil e olhos que brilhavam como o rio ao entardecer. Começou pedindo açúcar emprestado, depois um favor aqui, outro ali. Quando percebi, já estávamos rindo juntos na calçada, dividindo cerveja e confidências. Eu sabia que era errado, mas a carência falava mais alto. Camila me fazia sentir vivo de novo, desejado, importante. E, aos poucos, fui me deixando levar.

— Antônio, você está diferente — Ana Clara me disse certa noite, enquanto jantávamos feijão tropeiro e arroz. Ela tinha só dez anos, mas os olhos dela eram atentos, desconfiados. — A mamãe vai voltar logo?

Engoli em seco. — Vai, filha. Ela só precisa juntar mais um dinheirinho. Logo a gente vai estar todo mundo junto de novo.

Mas eu mesmo já não acreditava nisso. Beatriz parecia cada vez mais distante, falando de planos que não me incluíam, de uma vida nova que ela sonhava construir lá fora. E eu, aqui, me sentia cada vez mais preso, mais pequeno.

Certa tarde, Camila apareceu em casa com um bolo de fubá. — Fiz pra você e pra Ana Clara — disse, sorrindo. — Posso entrar?

Eu hesitei, mas deixei. Sentamos na varanda, e ela brincou com Ana Clara, que logo se afeiçoou a ela. Era fácil gostar de Camila. Ela tinha uma alegria simples, um jeito de quem não carrega o peso do mundo nas costas. Diferente de mim, que vivia dobrado sob o peso das minhas escolhas.

Os encontros foram ficando mais frequentes, mais íntimos. E, quando percebi, já não era só companhia que eu buscava. Era fuga. Fuga da solidão, da saudade, da culpa. Camila me olhava como se eu fosse o homem mais importante do mundo, e eu me agarrava a isso como um náufrago a uma tábua.

Mas a vida não perdoa. Um dia, Ana Clara chegou da escola mais cedo e nos pegou juntos, abraçados no sofá. O olhar dela, de susto e decepção, me atravessou como uma faca. — Papai, o que você está fazendo?

Eu tentei explicar, mas as palavras não saíam. Camila se levantou, constrangida, e foi embora sem olhar pra trás. Ana Clara correu pro quarto e bateu a porta. Fiquei ali, sozinho, sentindo o peso de tudo o que tinha feito.

Naquela noite, Beatriz ligou. — Antônio, preciso te contar uma coisa. Acho que não vou conseguir voltar tão cedo. Arrumei outro emprego, agora cuido de uma senhora que vai me pagar melhor. Mas vou ter que ficar mais tempo aqui. Você entende?

Eu quis gritar, dizer que não aguentava mais, que estava tudo desmoronando. Mas só consegui responder: — Entendo, Beatriz. Faz o que for melhor pra você.

Depois disso, tudo mudou. Ana Clara ficou mais calada, mais distante. Camila parou de aparecer. E eu, perdido entre a saudade da minha esposa e a culpa pelo que fiz, comecei a me perguntar onde foi que tudo deu errado.

Minha mãe, Dona Lourdes, percebeu que algo estava errado. — Meu filho, você precisa conversar com a Beatriz. Não pode ficar assim, vivendo de mentira. Pensa na Ana Clara, pensa na sua família.

Mas como conversar com alguém que já não está mais aqui? Como pedir perdão por algo que nem eu mesmo consigo perdoar?

Os dias foram passando, cada vez mais iguais. O trabalho na oficina já não me dava prazer. Os amigos começaram a se afastar, cochichando pelas costas. Juazeiro é cidade pequena, e as notícias correm rápido. Logo todo mundo sabia do meu caso com Camila. E eu, que sempre fui respeitado, virei motivo de fofoca.

Uma noite, Ana Clara veio até mim, os olhos cheios de lágrimas. — Papai, por que a mamãe não volta? Por que você não gosta mais dela?

Meu coração se partiu. Abracei minha filha e chorei junto com ela. — Eu amo sua mãe, filha. Só estou perdido. Mas prometo que vou tentar consertar as coisas.

Mas como consertar o que já está quebrado?

Beatriz continuava distante, cada vez mais envolvida com a vida em Portugal. Mandava dinheiro, fotos, mas já não falava de saudade, de planos juntos. Um dia, recebi uma mensagem dela: “Antônio, acho que precisamos conversar sobre o nosso futuro. Não sei se ainda faz sentido continuarmos assim.”

O chão se abriu sob meus pés. Liguei pra ela, mas ela não atendeu. Mandei mensagens, e nada. Passei noites em claro, revivendo cada escolha, cada erro. Pensei em ir atrás de Camila, mas sabia que não era justo. Ela merecia alguém inteiro, não um homem despedaçado.

Minha mãe tentou me animar. — Filho, a vida é feita de recomeços. Você errou, mas ainda pode ser feliz. Pede perdão, tenta reconstruir sua família. Ou então, segue em frente, mas de cabeça erguida.

Mas como seguir em frente quando tudo o que eu queria era voltar no tempo?

Um dia, Ana Clara me entregou um desenho. Era a nossa família, de mãos dadas, sorrindo. — Eu só queria que a gente fosse feliz de novo, papai.

Olhei pra ela, pro desenho, pra casa vazia. E percebi que, no fim das contas, a saudade não era só da Beatriz, mas de quem eu era antes de tudo isso. Antes da solidão, da culpa, das escolhas erradas.

Hoje, escrevo essas palavras tentando entender onde foi que me perdi. Será que existe perdão para quem traiu não só a esposa, mas a si mesmo? Será que ainda é possível reconstruir o que o tempo e a distância destruíram?

E você, o que faria no meu lugar? O que vale mais: seguir em frente ou tentar consertar o passado?