A Última Esperança na Praça das Mangueiras

— Dona Cida, posso ficar aqui só mais um pouquinho? — minha voz saiu rouca, quase um sussurro, enquanto ela fechava as portas do pequeno quiosque na Praça das Mangueiras. O vento cortava meu rosto, e eu puxava o casaco velho até o queixo, tentando me proteger do frio que parecia vir de dentro pra fora.

Ela olhou pra mim com pena, mas também com aquele olhar cansado de quem já viu muita coisa. — Pode, João. Mas não demora, viu? Hoje tá mais gelado que ontem. — E foi embora, arrastando o carrinho de pipoca, deixando atrás de si um cheiro doce que misturava com a umidade da noite.

Fiquei ali, sentado no banco de cimento, olhando pro vazio. Antes, aquela praça era cheia de vida. No verão, as crianças corriam atrás de bola, os casais riam alto, os velhos jogavam dominó debaixo das mangueiras. Agora, só restava eu e o eco dos meus próprios pensamentos.

Meu nome é João Batista dos Santos. Tenho 42 anos e, até pouco tempo atrás, era pedreiro. Trabalhava duro, mas sempre dava um jeito de trazer um picolé pra minha filha, Ana Clara, quando passava aqui depois do serviço. Ela adorava sentar nesse mesmo banco e contar as novidades da escola. Agora, faz três meses que não vejo minha filha. Desde que perdi o emprego e a casa, tudo desmoronou.

A mãe dela, Luciana, não quis saber de conversa. — João, não dá mais! Você não tem como sustentar nem a si mesmo! — gritou ela no último dia em que estive em casa. Eu tentei explicar, tentei prometer que ia dar um jeito, mas ela já tinha tomado a decisão. Pegou Ana Clara e foi pra casa da mãe dela em Contagem.

Desde então, venho todos os dias pra essa praça. No começo era só pra pensar, pra tentar entender onde foi que errei. Depois virou necessidade: aqui pelo menos eu tinha um pouco de paz e às vezes ganhava um pão de queijo ou um café dos vendedores ambulantes que me conheciam desde moleque.

O problema é que ninguém quer saber dos problemas dos outros por muito tempo. No início até perguntavam: — E aí, João? Já conseguiu serviço? — Mas depois começaram a evitar meu olhar. Acho que ninguém gosta de ver o fracasso tão de perto.

Uma noite dessas, enquanto eu tentava dormir no banco da praça enrolado num cobertor rasgado, ouvi passos apressados. Era Rafael, meu antigo colega de obra. Ele me reconheceu na hora:

— Caramba, João! Que fim de mundo é esse? Você tá morando aqui?

— Não é bem morando… Só passo umas noites quando não tenho pra onde ir.

Ele ficou sem jeito. Tirou uma nota amassada do bolso e me deu.

— Compra um lanche aí… E se quiser tentar uma diária lá na obra do seu Zé amanhã cedo, fala comigo.

Agradeci, mas sabia que não era tão simples assim. Já tinha tentado outras vezes e sempre esbarrava na mesma resposta: “João, você é bom trabalhador, mas agora só tem vaga pra quem tem experiência com elétrica ou hidráulica”. Eu só sabia levantar parede.

O tempo foi passando e a praça foi ficando cada vez mais vazia. Os poucos amigos sumiram. Até Dona Cida começou a fechar o quiosque mais cedo. O inverno chegou pesado esse ano em Belo Horizonte. O vento parecia atravessar os ossos.

Numa dessas noites geladas, sentei no banco e chorei baixinho. Não era só pelo frio ou pela fome: era pela saudade da Ana Clara. Lembrei do sorriso dela quando ganhava um sorvete de casquinha e das histórias que inventávamos juntos olhando as nuvens passando entre as folhas das mangueiras.

No meio desse desespero todo, ouvi uma voz conhecida:

— João? É você mesmo?

Era minha irmã mais velha, Marta. Fazia anos que não nos falávamos direito desde uma briga besta por causa da herança do nosso pai.

— Marta… — minha voz falhou.

Ela se aproximou devagar e sentou ao meu lado. Ficamos em silêncio por alguns minutos até ela perguntar:

— Por que você não me procurou antes?

— Orgulho… vergonha… sei lá — respondi baixinho.

Ela segurou minha mão gelada entre as dela:

— Vem pra casa comigo hoje. Não precisa passar por isso sozinho.

Naquela noite aceitei a ajuda dela. Dormi numa cama quente depois de meses na rua. No dia seguinte ela fez café forte e pão com manteiga igual nossa mãe fazia quando éramos crianças.

Conversamos muito naquele café da manhã. Falei sobre tudo: o desemprego, a separação, a saudade da Ana Clara. Marta me ouviu sem julgar.

— Você precisa procurar ajuda, João. Tem muita gente passando por isso agora… Não é vergonha nenhuma pedir socorro.

Com o apoio dela comecei a procurar trabalho de novo. Fiz cadastro no SINE, fui atrás de cursos gratuitos na igreja do bairro. Não foi fácil — cada “não” doía como uma facada — mas aos poucos fui recuperando a esperança.

Um dia recebi uma ligação inesperada:

— Pai? É a Ana Clara! A mamãe deixou eu ligar pra você…

Meu coração quase saiu pela boca.

— Filha! Que saudade…

— Eu também tô com saudade… Quando você vai me ver?

Prometi que logo estaríamos juntos de novo. Aquela ligação me deu forças pra continuar lutando.

Hoje ainda não tenho tudo resolvido. Trabalho como ajudante numa padaria e moro com minha irmã enquanto junto dinheiro pra alugar um quartinho só meu. Mas aprendi que ninguém precisa enfrentar a dor sozinho.

Às vezes passo pela Praça das Mangueiras e vejo crianças brincando como antes. Sento no banco onde tudo começou e agradeço por ter encontrado alguém ao meu lado quando mais precisei.

Será que todo mundo tem alguém pra estender a mão quando o mundo desaba? Ou será que ainda tem muita gente sofrendo calada por orgulho ou vergonha? Eu só sei que hoje não tenho mais medo de pedir ajuda.