O Último Café de Marcelo

O vento cortava como navalha, mesmo aqui em Belo Horizonte, onde o frio raramente é tão cruel. Encostei a testa no vidro da janela da minha quitinete e observei os meninos e meninas correndo para a escola. Uns com casacos surrados, outros só de moletom, tênis furado e tornozelos de fora, como se o frio não existisse. Senti uma pontada de inveja – não só da juventude deles, mas daquela coragem inconsciente de quem ainda acredita que tudo é possível.

Peguei minha caneca rachada e tomei um gole de café frio. O gosto amargo grudou na garganta. Meu celular vibrou na mesa: era minha mãe, de novo. Suspirei fundo antes de atender.

— Marcelo, você já conseguiu o dinheiro? — a voz dela veio seca, ansiosa.

— Mãe, eu tô tentando… mas tá difícil. O pessoal do trabalho cortou as horas extras, e o aluguel vence amanhã…

— Você sabe que se não pagar até sexta-feira eles vão tomar a casa da vó! — ela quase gritou. — Eu não aguento mais essa pressão!

Fechei os olhos, sentindo o peso do mundo nas costas. Desde que meu pai morreu, há três anos, tudo desmoronou. Minha mãe perdeu o emprego de doméstica, meu irmão mais novo largou a escola pra trabalhar num lava-jato, e eu virei o esteio da família – mesmo ganhando pouco mais que um salário mínimo como estoquista num supermercado.

— Eu sei, mãe… Eu vou dar um jeito — menti, sem saber como.

Desliguei e fiquei olhando para o teto descascado. O barulho dos carros lá embaixo parecia distante. Lembrei do tempo em que meu pai ainda estava vivo e a gente fazia churrasco na laje aos domingos. Ele ria alto, contava piadas ruins e dizia que família era tudo. Agora, cada um de nós parecia uma ilha.

O interfone tocou. Era o síndico.

— Marcelo, bom dia. Só pra lembrar: o condomínio tá atrasado dois meses. Se não pagar até semana que vem, vai ter multa.

— Pode deixar, seu Antônio… vou resolver isso — respondi, tentando soar confiante.

Mal fechei a porta e ouvi batidas fortes do outro lado. Era a dona Cida, vizinha do 302.

— Ô menino, cê viu meu neto? Ele sumiu desde ontem! Tô desesperada!

— Dona Cida, não vi não… Mas se eu souber de alguma coisa aviso a senhora.

Ela saiu chorando pelo corredor. Senti um aperto no peito. Todo mundo aqui carregava um fardo invisível.

Voltei pra janela. Os meninos já tinham sumido na esquina. Lembrei do tempo em que eu também corria pra escola sem medo do futuro. Agora, cada dia era uma batalha pra sobreviver.

Peguei o celular e abri o aplicativo do banco: saldo negativo. Cartão estourado. Mensagem do gerente: “Marcelo, precisamos conversar sobre sua dívida”.

Me sentei no chão e abracei os joelhos. O silêncio era pesado. Pensei em ligar pra Ana Paula, minha ex-namorada. Fazia meses que não nos falávamos desde que ela cansou das minhas promessas vazias e foi embora pra Uberaba tentar a vida.

“Você precisa se cuidar primeiro”, ela dizia sempre. “Não adianta querer salvar todo mundo se você tá se afogando”.

Mas como cuidar de mim se todo mundo depende de mim?

O telefone tocou de novo. Era meu irmão:

— Marcelo, cê pode me emprestar cinquenta reais? O patrão atrasou o pagamento e tô sem dinheiro pra passagem…

— Mano, eu tô liso… Mas vou ver o que faço.

Ele desligou sem dizer tchau. Fiquei olhando pro teto de novo. A vontade era sumir.

No fim da tarde, fui ao supermercado trabalhar. As prateleiras cheiravam a desinfetante barato e pão velho. O gerente me chamou na sala:

— Marcelo, preciso cortar mais horas do seu turno… A crise tá feia.

— Mas chefe… eu preciso desse dinheiro!

Ele deu de ombros:

— Não posso fazer nada.

Voltei pra casa com uma sacola de pão amanhecido que ia ser meu jantar e meu café da manhã do dia seguinte.

No corredor escuro do prédio, encontrei dona Cida sentada no chão, chorando baixinho.

— Dona Cida… seu neto apareceu?

Ela balançou a cabeça:

— Não… Acho que ele foi embora pra rua de novo…

Sentei ao lado dela. Ficamos em silêncio por um tempo.

— Sabe, Marcelo… às vezes eu penso que Deus esqueceu da gente — ela murmurou.

Olhei pro céu cinzento pela janela quebrada do corredor.

— Eu também penso isso às vezes…

Quando entrei em casa, minha mãe mandou mensagem: “Conseguiu o dinheiro?” Não respondi. Deitei no colchão fino no chão e fiquei olhando pro teto até o sono chegar.

No meio da noite acordei com barulho de sirene lá fora. Fui até a janela: dois meninos brigavam na esquina por causa de um celular roubado. Um deles sangrava no rosto. A polícia chegou rápido, mas ninguém parecia se importar de verdade.

Voltei pra cama tremendo de frio e medo. Pensei em tudo que podia dar errado amanhã: despejo, cobrança do banco, briga em casa…

Mas também pensei em Ana Paula dizendo: “Você precisa se cuidar primeiro”.

Fechei os olhos e imaginei um futuro diferente: eu trabalhando num lugar melhor, minha mãe sorrindo de novo, meu irmão voltando a estudar… Será que ainda dava tempo?

Quando o sol nasceu tímido entre as nuvens cinzentas, levantei devagar. Fiz outro café amargo e fiquei olhando pela janela os meninos indo pra escola outra vez.

Talvez hoje eu consiga dar um passo diferente. Talvez hoje eu consiga pedir ajuda sem vergonha ou orgulho.

Ou talvez não… Mas pelo menos ainda estou aqui.

Será que a gente consegue recomeçar mesmo quando tudo parece perdido? Ou será que tem horas em que é melhor aceitar que não dá mais? O que vocês acham?