A Sombra da Traição
— André, você esqueceu de novo de tirar o frango do congelador? — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, ecoando pela cozinha apertada do nosso apartamento no bairro Santa Tereza. Ele nem levantou os olhos do celular, só murmurou um “desculpa” automático, como quem responde ao toque de um despertador. Senti o sangue ferver. Não era só sobre o frango, nunca é só sobre o frango. Era sobre todas as vezes que me senti invisível, sobre cada pequeno esquecimento que parecia dizer: “você não importa”.
Naquela noite, jantamos em silêncio. O arroz requentado e o feijão de ontem pareciam ainda mais insossos diante do clima pesado. André terminou de comer, largou o prato na pia e foi para o quarto, sem olhar para mim. Fiquei ali, encarando a parede, tentando lembrar quando foi que começamos a nos perder. Talvez tenha sido quando ele começou a trabalhar até tarde, ou quando eu parei de perguntar como tinha sido o dia dele. Ou talvez tenha sido antes, quando a rotina foi engolindo nossos sonhos, um boleto de cada vez.
Os dias seguintes foram uma repetição amarga. Eu acordava cedo, preparava o café, deixava o dele na mesa, mas ele saía apressado, quase sem me dar bom dia. À noite, voltava cansado, com o olhar perdido, e se trancava no quarto para trabalhar ou assistir futebol. Não trocávamos mais do que duas ou três palavras. A casa parecia grande demais para nós dois, mesmo sendo tão pequena.
No sexto dia, minha mãe ligou. — Filha, tá tudo bem aí? Sua voz tá estranha. — Tentei disfarçar, mas ela me conhece melhor do que ninguém. — Tá sim, mãe, só tô cansada. — Ela insistiu: — Cansada de quê, Zuleica? Do trabalho ou do André? — Engoli em seco. — De tudo, mãe. — Ela suspirou do outro lado da linha. — Filha, casamento é assim mesmo, mas não deixa o orgulho falar mais alto. Conversa com ele. — Prometi que tentaria, mas sabia que não seria tão simples.
Naquela noite, ouvi André falando baixo no telefone. A porta do quarto estava entreaberta. — Não dá mais, Camila. Ela percebeu. — Meu coração disparou. Camila? Quem era Camila? Senti o chão sumir sob meus pés. Fui para o banheiro, lavei o rosto, tentei me acalmar. Mas a dúvida já tinha se instalado como uma sombra fria no meu peito.
No dia seguinte, não consegui olhar para ele. Saí cedo, fui trabalhar no caixa do supermercado, mas minha cabeça estava longe. Cada cliente que passava, cada nota que eu passava no leitor, só conseguia pensar: “Será que ele está me traindo? Será que tudo foi mentira?”
Quando voltei para casa, encontrei André sentado no sofá, com o olhar perdido. — Precisamos conversar, Zuleica. — Sentei na poltrona, sentindo as mãos suarem. — Sobre o quê? — perguntei, tentando manter a voz firme. Ele hesitou, respirou fundo. — Eu… eu errei. Tem uma pessoa do trabalho, a Camila. Não aconteceu nada, mas… eu pensei. Pensei em ir embora. — Senti uma mistura de raiva, tristeza e alívio. — Você pensou, mas não foi? — Ele balançou a cabeça. — Não fui. Porque, no fundo, eu ainda te amo. Mas não sei se você ainda me ama.
As lágrimas vieram sem que eu pudesse controlar. — Como você pôde? Depois de tudo que passamos juntos? — Ele chorou também, coisa rara. — Eu me perdi, Zuleica. O trabalho, a pressão, a rotina… Me senti sozinho, mesmo do seu lado. — Fiquei em silêncio, tentando entender onde foi que erramos. — E eu? Você acha que eu não me sinto sozinha também? — Ele me olhou, surpreso. — Eu sei, mas a gente nunca fala sobre isso. Só briga por besteira. — Fiquei olhando para as mãos, para as marcas de detergente nos meus dedos. — E agora? O que a gente faz?
Ele se aproximou, ajoelhou na minha frente. — Eu quero tentar de novo. Quero ser melhor. Por você, por nós. — Senti vontade de gritar, de bater nele, de abraçá-lo ao mesmo tempo. — Não sei se consigo confiar em você de novo, André. — Ele segurou minha mão. — Eu vou te provar. Mas preciso que você me diga se ainda quer tentar.
Ficamos ali, em silêncio, por longos minutos. O relógio da parede marcava 22h17. Lá fora, o barulho dos carros, o cheiro de chuva chegando. — Eu não sei, André. Preciso de tempo. — Ele assentiu, respeitando meu espaço. — Eu espero. O que for preciso.
Naquela noite, dormi no sofá. Chorei baixinho, lembrando dos nossos primeiros anos juntos, das promessas, dos planos. Lembrei do dia em que nos mudamos para aquele apartamento, do cheiro de tinta fresca, da esperança de uma vida nova. Onde foi que tudo desandou? Será que ainda dava tempo de reconstruir?
No dia seguinte, acordei com o cheiro de café. André estava na cozinha, preparando o café da manhã. — Fiz pão de queijo, do jeito que você gosta. — Sentei à mesa, ainda desconfiada, mas com o coração um pouco mais leve. — Obrigada. — Ele sorriu, tímido. — Eu vou procurar ajuda, Zuleica. Terapia, sei lá. Não quero perder você. — Assenti. — Eu também preciso de ajuda. Não quero mais viver assim, sufocada.
Os dias foram passando. Começamos a conversar mais, a dividir as tarefas, a sair juntos, mesmo que fosse só para tomar um sorvete na pracinha. Fomos à terapia de casal, choramos, brigamos, rimos. Não foi fácil. Ainda não é. Às vezes, a sombra da desconfiança volta, mas estamos tentando. Porque, no fundo, ainda existe amor. E, talvez, isso seja suficiente para recomeçar.
Às vezes me pergunto: quantos casais vivem presos nesse silêncio, nesse orgulho que só machuca? Será que vale a pena abrir mão de tudo por medo de se machucar de novo? E você, já sentiu a sombra da traição rondando sua casa?