Vingança
— Rodrigo, corre! — gritou minha mãe, com a voz embargada de pânico, enquanto eu ainda tentava entender o que estava acontecendo. O estampido seco do tiro ecoou pela rua, e eu, com apenas doze anos, vi meu pai cair de joelhos, as mãos apertando o peito, o sangue manchando a camisa que ele usava para trabalhar. Eu nunca tinha visto tanto sangue. Nunca tinha sentido tanto ódio.
A polícia chegou tarde, como sempre. Os vizinhos se aglomeraram, cochichando, alguns chorando, outros apenas curiosos. Minha mãe, Dona Sônia, me abraçou tão forte que achei que fosse me sufocar. — Eles não vão fazer nada, filho. Aqui, pobre só serve pra estatística — ela sussurrou, com os olhos vermelhos de tanto chorar.
Meu pai, Seu Antônio, era um homem simples, mas fazia de tudo pra me dar oportunidades. Ele dizia que eu tinha que ser melhor, que precisava estudar, aprender, fugir daquele ciclo de miséria. Por isso, me colocou no jiu-jitsu do bairro, me fez fazer reforço de matemática com a professora Marlene, e até me deu um violão velho, dizendo que música era coisa de gente inteligente. Eu era um menino calado, mas observador. Gostava de desenhar, de montar quebra-cabeças, de ouvir as histórias do meu avô sobre o tempo em que o Rio era mais seguro.
Mas naquela noite, tudo mudou. O medo virou raiva. A raiva virou obsessão. Passei a estudar cada detalhe do crime, a perguntar aos vizinhos, a tentar entender quem poderia ter feito aquilo. Minha mãe dizia pra eu esquecer, que a vida precisava seguir, mas eu não conseguia. A cada vez que via um policial passando, sentia vontade de gritar, de exigir justiça. Mas justiça, ali, era só palavra bonita em boca de político.
Os anos passaram. Cresci rápido demais. Enquanto meus colegas se preocupavam com futebol e festas, eu só pensava em vingança. Me afastei de quase todo mundo. Só tinha dois amigos de verdade: Rafael, que era meu parceiro no jiu-jitsu, e Camila, que estudava comigo desde o fundamental. Eles tentavam me distrair, me levar pra praia, pro cinema, mas eu sempre acabava voltando pro mesmo assunto. — Você precisa viver, Rodrigo — dizia Camila, segurando minha mão. — Seu pai não ia querer te ver assim. — Mas como viver, Camila? Como fingir que nada aconteceu?
Minha mãe se desdobrava pra pagar as contas. Trabalhava de diarista, pegava roupa pra passar, fazia bolo pra vender na vizinhança. Eu ajudava como podia, dando aula de reforço pros meninos menores, consertando bicicleta, vendendo desenho na feira. Mas nada preenchia o buraco que ficou dentro de mim.
Quando fiz dezoito anos, decidi que ia descobrir quem matou meu pai. Comecei a frequentar a delegacia, puxar conversa com gente da rua, ouvir as fofocas do bar do Seu Zé. Descobri que o crime tinha sido encomendado por um traficante da área, o tal do Jeferson, conhecido como Jefinho. Ele mandava e desmandava no bairro, e ninguém tinha coragem de enfrentá-lo. Meu pai tinha se recusado a pagar uma “taxa de proteção”. Pagou com a vida.
A raiva me consumia. Passei noites em claro, planejando o que faria se encontrasse Jefinho. Rafael tentou me convencer a largar isso. — Cara, você vai acabar morto. Não vale a pena. — Mas pra mim, não tinha outro caminho. Eu precisava de justiça, nem que fosse com as próprias mãos.
Foi numa sexta-feira à noite que tudo aconteceu. Eu estava voltando do trabalho, quando vi Jefinho na esquina, cercado de capangas, rindo alto, ostentando corrente de ouro. Meu coração disparou. Senti o suor escorrer pelas costas. Pensei em atravessar a rua, fingir que não vi. Mas não consegui. Fui até ele, olhei nos olhos daquele homem que destruiu minha família. — Você não lembra de mim, né? — perguntei, a voz trêmula. Ele riu, debochado. — Moleque, sai daqui antes que eu te faça sumir igual teu pai. — Aquilo foi como um soco. Senti o sangue ferver.
Não lembro direito o que aconteceu depois. Só lembro do barulho da briga, dos gritos, do gosto de sangue na boca. Quando percebi, estava no chão, com Rafael me puxando pelos braços, me tirando dali. — Você tá maluco, Rodrigo? Quer morrer? — ele gritava, desesperado. Mas eu só conseguia chorar. Chorar de raiva, de impotência, de dor.
A notícia correu rápido. Minha mãe ficou sabendo, me deu uma surra de palavras. — Você quer acabar igual teu pai? Eu já perdi ele, não vou perder você também! — Ela chorava, e eu chorava junto. Camila veio me visitar, trouxe bolo de fubá, tentou me consolar. — Rodrigo, você precisa perdoar. Não por ele, mas por você. — Mas como perdoar? Como esquecer?
Os dias seguintes foram um inferno. Jefinho mandou recado: se eu aparecesse de novo, minha mãe seria a próxima. O medo voltou a dominar nossa casa. Minha mãe dormia com faca debaixo do travesseiro. Eu mal conseguia sair pra trabalhar. Rafael ficou mais distante, com medo de se envolver. Camila foi a única que ficou do meu lado. — Você precisa sair daqui, Rodrigo. Vai estudar, vai tentar uma vida nova. — Ela me ajudou a conseguir uma bolsa numa faculdade em outra cidade. Foi difícil deixar minha mãe, mas ela insistiu. — Vai, filho. Aqui não tem futuro pra você.
Mudei pra Belo Horizonte, tentei recomeçar. No começo, tudo era estranho. Sentia falta do cheiro do mar, do barulho do trem, do abraço da minha mãe. Mas aos poucos, fui me adaptando. Fiz novos amigos, comecei a tocar violão em barzinho, dei aula de jiu-jitsu pra crianças. A saudade ainda doía, mas a raiva foi dando lugar a uma tristeza mais silenciosa.
Anos depois, recebi a notícia de que Jefinho tinha sido morto numa briga de facção. Não senti alívio. Não senti nada. Só um vazio. Liguei pra minha mãe, contei a novidade. Ela chorou, mas disse: — Agora você pode viver, filho. Deixa esse passado pra trás.
Hoje, olhando pra trás, vejo o quanto a vingança me consumiu. Perdi amigos, perdi tempo, quase perdi a mim mesmo. Mas também aprendi que justiça, no Brasil, é artigo de luxo. E que, às vezes, perdoar é o único jeito de seguir em frente.
Será que algum dia a gente consegue mesmo deixar o passado pra trás? Ou será que a dor só muda de lugar dentro da gente?