No Limiar da Velhice: O Aniversário Esquecido de Dona Nadja
— Dona Nadja, a senhora vai querer o café agora ou mais tarde? — perguntou a Cida, minha cuidadora, enquanto ajeitava as almofadas do meu sofá já gasto pelo tempo. Eu nem respondi de imediato. Meu olhar estava fixo no telefone, esperando aquele toque que, no fundo, eu já sabia que não viria. Era véspera do meu aniversário de 80 anos, e o silêncio da casa parecia zombar da minha expectativa.
O telefone finalmente tocou, e meu coração disparou. Atendi com as mãos trêmulas, já imaginando a voz animada da minha neta, a doce e inquieta Kátia, dizendo que estava a caminho. Mas era o Antero, marido dela, com a voz abafada e cansada:
— Dona Nadja, desculpa ligar tão tarde… É que… amanhã não vamos conseguir ir pro seu aniversário.
Senti um aperto no peito. — Antero, meu filho, aconteceu alguma coisa? Kátia está bem?
Ele respirou fundo. — Kátia está na maternidade, dona Nadja. O bebê resolveu chegar antes da hora. Ela ficou tão ansiosa pra te ver, queria te dar o presente pessoalmente, mas… agora estou aqui, na sala de espera, esperando notícias.
Por um instante, o mundo parou. A alegria de ser bisavó se misturou ao medo, à preocupação e, principalmente, à solidão. Eu queria estar lá, queria segurar a mão da minha neta, mas minhas pernas já não me obedecem como antes, e a cidade grande parece cada vez mais distante para quem depende de ônibus lotado e da boa vontade dos outros.
Cida percebeu minha expressão e sentou ao meu lado, segurando minha mão. — Dona Nadja, vai dar tudo certo. Deus sabe o que faz.
Mas, naquela noite, a fé parecia pequena diante do vazio da sala. Lembrei dos aniversários antigos, quando minha casa era cheia de risadas, cheiro de bolo de fubá e crianças correndo pelo quintal. Agora, só o relógio fazia barulho, marcando o tempo que me separava do passado.
No dia seguinte, acordei cedo, como sempre. Vesti meu vestido azul, aquele que Kátia dizia me deixar “chique”, e esperei. O telefone tocou de novo. Era minha filha, Lúcia, mãe de Kátia, com a voz apressada:
— Mãe, desculpa, não vou conseguir passar aí hoje. Preciso ficar com a Kátia no hospital. O bebê nasceu prematuro, mas está bem. Só que ela está muito abalada, sabe?
Engoli o choro. — Claro, minha filha. Cuida dela. Eu entendo.
Mas será que entendia mesmo? Ou será que só dizia isso pra não parecer egoísta? O que eu queria mesmo era um abraço, um parabéns, um pedaço de bolo compartilhado. Em vez disso, fiquei olhando pela janela, vendo a vizinha, dona Zuleide, sair com os netos para o parque. Senti inveja. Senti vergonha de sentir inveja.
O dia passou devagar. Cida tentou animar a casa, colocou música, fez um bolo simples, mas eu não tinha apetite. No fim da tarde, sentei na varanda, olhando o céu mudar de cor, e comecei a conversar com Deus, como fazia quando era menina lá em Minas:
— Senhor, será que é isso que me espera agora? Ficar esperando ligações, notícias, migalhas de atenção? Será que é assim pra todo mundo que envelhece?
De repente, ouvi vozes na rua. Era meu neto mais novo, Rafael, chegando de surpresa com a esposa, Juliana, e a filhinha deles, Sofia. Ele me abraçou forte, como fazia quando era criança:
— Vó, desculpa não ter vindo mais cedo. Trouxe um presente pra senhora. — Ele me entregou um porta-retratos com uma foto nossa, tirada no Natal passado.
Chorei. Chorei de alegria, de alívio, de saudade. Sofia subiu no meu colo, me deu um beijo e disse:
— Feliz aniversário, bisa!
A casa se encheu de novo, mesmo que por pouco tempo. Rafael contou das dificuldades no trabalho, Juliana falou das contas atrasadas, e eu ouvi tudo com atenção, tentando dar conselhos, mas sabendo que o mundo deles era outro, cheio de pressa e preocupações que eu já não entendia direito.
Quando eles foram embora, a solidão voltou, mas de um jeito diferente. Senti que, apesar de tudo, ainda era importante para alguém. Liguei para o hospital, falei com Kátia, ouvi o choro do bebê pelo telefone. Ela chorou também, dizendo que sentia minha falta, que queria estar comigo, mas que a vida tinha outros planos.
Naquela noite, antes de dormir, olhei para o porta-retratos e pensei em tudo que vivi, nas perdas, nas alegrias, nas brigas e reconciliações. Pensei em como a família muda, se afasta, mas nunca deixa de ser família. E me perguntei:
Será que a gente aprende a lidar com a solidão, ou só se acostuma com ela? Será que, no fundo, todo mundo sente esse medo de ser esquecido?
E você, já sentiu isso também? Como lida com a saudade de quem ama?