O que a família vai dizer quando souber que vou viajar no meu aniversário?
— O que a família vai dizer quando souber que você vai viajar no seu aniversário? — a voz do Marcelo ecoou pela cozinha, carregada de reprovação, enquanto ele largava a xícara de café na pia com força suficiente para me fazer estremecer. Eu estava de costas, tentando disfarçar o tremor nas mãos enquanto cortava o pão, mas por dentro sentia o coração disparar.
Respirei fundo, tentando não deixar a raiva transparecer. — Marcelo, pela primeira vez na vida, eu quero fazer algo só pra mim. Só isso. Não é pedir demais, é? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mas meu peito ardia de medo e culpa.
Ele riu, aquele riso seco, meio debochado. — Como assim, não vai estar aqui? Você sempre organiza tudo, chama a família, faz aquele bolo de cenoura que todo mundo adora. O que a sua mãe vai pensar? E a sua irmã, então? — Ele me olhou como se eu tivesse perdido o juízo.
— Pois é, Marcelo. Sempre eu. Sempre eu que organizo, que agrado, que faço tudo pra todo mundo. Mas ninguém nunca pergunta o que eu quero. — larguei a faca na tábua, virei de frente pra ele, sentindo as lágrimas ameaçando cair. — Dessa vez, eu quero sumir. Quero passar meu aniversário longe de tudo isso. Quero me dar de presente um pouco de paz.
Ele balançou a cabeça, incrédulo. — Você tá exagerando, Janete. Isso é coisa de novela. A vida não é assim, não. — Ele saiu da cozinha, bufando, e eu fiquei ali, sozinha, ouvindo o barulho do chuveiro enquanto ele se preparava pra mais um dia de trabalho.
Sentei à mesa, olhando pro nada. Lembrei de todos os aniversários anteriores: a casa cheia de gente, risadas, mas também cobranças, olhares atravessados, perguntas invasivas. “Quando vem o segundo filho, Janete?” “Você não vai mudar de emprego?” “Marcelo não te ajuda em nada, né?” Sempre as mesmas vozes, sempre as mesmas expectativas. Eu sorria, servia bolo, fingia que estava tudo bem. Mas por dentro, cada ano, eu me sentia mais vazia.
Peguei o celular e abri o grupo da família no WhatsApp. Minha mãe já tinha mandado mensagem cedo: “Filha, já pensou no cardápio desse ano? Sua tia Lúcia quer trazer o pudim, mas disse que só se você fizer aquele arroz de forno. Avise se precisa de ajuda. Beijos, te amo!”. Senti um aperto no peito. Eu amava minha mãe, mas ela nunca entendia quando eu dizia que estava cansada. Pra ela, família era tudo, e eu tinha que ser a anfitriã perfeita.
Minha irmã, Patrícia, mandou um áudio: “Mana, esse ano vou levar o Pedro e a Sofia, viu? Eles estão animados pra te ver! Ah, vê se faz aquele brigadeiro de colher, tá? Amo!”. Suspirei. Era sempre assim. Todo mundo esperava que eu fosse a base, o alicerce, a que nunca falha.
Naquele momento, decidi: eu ia viajar. Não sabia pra onde, nem como, mas ia. Peguei o notebook e comecei a pesquisar destinos baratos. Pensei em Paraty, sempre sonhei em conhecer aquelas ruas de pedra, as casinhas coloridas, o mar calmo. Vi uma pousada simples, mas charmosa, e reservei dois dias. Meu coração disparou de novo, mas dessa vez era de excitação. Eu nunca tinha feito nada assim. Nunca.
Quando Marcelo voltou do banho, me olhou de cima a baixo. — Você tá mesmo falando sério? Vai largar tudo pra trás só porque tá cansada? — Ele parecia mais magoado do que bravo agora.
— Não é largar tudo pra trás, Marcelo. É só dois dias. Eu preciso disso. Preciso lembrar quem eu sou, além de ser esposa, mãe, filha, irmã. Eu preciso ser Janete, só Janete, pelo menos uma vez na vida.
Ele ficou em silêncio, pegou a mochila e saiu. O silêncio que ficou foi ensurdecedor. Fui trabalhar com a cabeça a mil. No ônibus, olhei pela janela e vi a cidade passando rápido, as pessoas apressadas, cada uma com seus problemas. Me perguntei quantas mulheres estavam ali, sentindo o mesmo que eu: sufocadas pelas expectativas, cansadas de serem tudo pra todos e nada pra si mesmas.
No trabalho, tentei me concentrar, mas minha colega, Simone, percebeu que eu estava diferente. — Tá tudo bem, Jani? — ela perguntou, com aquele olhar de quem realmente se importa.
— Vou viajar sozinha no meu aniversário — confessei, quase sussurrando, como se fosse um segredo proibido.
Ela sorriu, surpresa. — Menina, que coragem! Sempre quis fazer isso, mas nunca tive peito. Vai pra onde?
— Paraty. Só dois dias. Preciso respirar, sabe?
— Sei demais. — Ela apertou minha mão. — Vai, sim. Você merece.
Aquela validação me deu força. Quando cheguei em casa, Marcelo estava no sofá, assistindo futebol. O clima estava pesado. Sentei ao lado dele, mas ele não disse nada. Fui pro quarto, comecei a arrumar uma mochila pequena. Separei um vestido leve, um livro, um caderno pra escrever. Senti uma mistura de medo e liberdade.
Na manhã da viagem, minha mãe ligou cedo. — Filha, que história é essa de viajar no seu aniversário? Sua tia Lúcia tá uma fera, disse que já tinha comprado os ingredientes do pudim. E a Patrícia? Ficou chateada. Você não pode fazer isso com a família, Janete. — A voz dela era uma mistura de preocupação e cobrança.
— Mãe, eu preciso disso. Só dois dias. Prometo que volto e a gente faz um almoço depois. Mas esse ano, eu quero comemorar do meu jeito.
Ela suspirou, derrotada. — Você sabe que eu só quero o seu bem, né? Mas não entendo essa sua necessidade de ficar sozinha.
— Eu sei, mãe. Mas eu preciso me entender. Preciso me ouvir um pouco.
Desliguei o telefone com o coração apertado, mas determinada. Peguei um ônibus até a rodoviária, comprei uma passagem e sentei na janela. Enquanto o ônibus deixava a cidade, senti as lágrimas caírem. Não era tristeza, era alívio. Pela primeira vez, eu estava escolhendo por mim.
Cheguei em Paraty no fim da tarde. O sol dourava as ruas de pedra, o cheiro de mar misturava com o das flores das janelas. Caminhei sem rumo, sentindo o vento no rosto. Sentei num café, pedi um bolo de laranja e um café forte. Abri o caderno e comecei a escrever:
“Hoje, pela primeira vez, celebro a mim mesma. Não sou só o que esperam de mim. Sou mulher, sou sonho, sou vontade. E mereço existir além das obrigações.”
Naquela noite, dormi ouvindo o barulho do mar. No dia seguinte, acordei cedo, caminhei pela praia, deixei a água gelada lavar meus pés. Senti uma paz que há anos não sentia. Pensei em Marcelo, na minha mãe, na Patrícia. Sabia que eles estavam chateados, mas também sabia que, se eu não fizesse isso agora, nunca faria.
No último dia, sentei na varanda da pousada e liguei pra casa. Marcelo atendeu, a voz mais suave. — E aí, já cansou de ser livre?
Sorri. — Não, Marcelo. Mas tô com saudade. E acho que agora vou conseguir ser melhor pra todo mundo. Porque, finalmente, fui um pouco melhor pra mim.
Ele ficou em silêncio, depois riu. — Volta logo, tá? A casa tá um caos sem você.
Desliguei, olhando pro mar. Senti orgulho de mim mesma. Pela primeira vez, não me deixei engolir pelas expectativas. Pela primeira vez, fui protagonista da minha própria história.
Será que a gente precisa mesmo esperar tanto tempo pra se escolher? Quantas mulheres ainda vão adiar seus próprios sonhos pra caber no que esperam delas? E você, já se escolheu hoje?