Sozinha na Estrada: Diário de uma Mãe Solteira
— Mãe, você acha que hoje a gente consegue tomar banho quente? — Lucas pergunta, encolhido debaixo do cobertor, com o rosto meio escondido, como se tivesse medo da resposta. Eu olho para ele, tentando sorrir, mas sei que minha expressão entrega o cansaço.
— Vamos tentar, filho. Se o moço do posto deixar, a gente usa o chuveiro dos caminhoneiros. — Tento soar otimista, mas a verdade é que, desde que Marcelo foi embora, otimismo virou artigo de luxo na minha vida.
Lembro do dia em que ele saiu. Era uma terça-feira chuvosa, igual hoje. Ele entrou em casa, pegou as malas que já estavam prontas, olhou para mim com aquele olhar frio e disse: — Carolina, não dá mais. Eu preciso de liberdade. Vou continuar pagando tudo certinho, mas não posso mais viver assim. — E saiu, levando o carro e a minha paz. Ficou a hipoteca do apartamento, as contas atrasadas e um filho de cinco anos perguntando por que o pai não vinha mais jantar.
No começo, tentei manter as aparências. Trabalhava como professora numa escola pública em Osasco, fazia bicos de reforço escolar à noite e ainda arrumava tempo para cuidar do Lucas. Mas o salário não dava, a hipoteca virou uma bola de neve e, quando percebi, o banco já estava batendo na porta. Não tive escolha: vendi o que pude, comprei essa Kombi velha e decidi cair na estrada. Melhor do que ficar presa num apartamento vazio, ouvindo o eco das lembranças e das contas.
No início, a estrada parecia libertadora. Cada cidade era uma promessa de recomeço. Mas logo percebi que, para uma mulher sozinha com uma criança, o Brasil é um campo minado. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi piadinhas de frentistas, olhares desconfiados de policiais rodoviários, ou perguntas invasivas de estranhos: — Cadê o pai do menino? — Como se a ausência dele fosse culpa minha.
Teve uma noite, em Vitória da Conquista, que nunca vou esquecer. Estava estacionada perto de um posto, tentando dormir, quando ouvi batidas fortes na porta da Kombi. Meu coração disparou. — Ô dona, abre aí! — era um policial. Abri a porta, tremendo. Ele olhou para dentro, viu o Lucas dormindo, e perguntou: — A senhora não tem medo de andar assim, sozinha? — Tive vontade de responder que medo eu tinha era de gente como ele, mas só consegui balbuciar: — Tenho, mas não tenho escolha.
Lucas sempre foi meu companheiro. Mesmo pequeno, percebeu rápido que nossa vida era diferente. Na escola, quando conseguia matriculá-lo por alguns meses, ele era o menino da casa sobre rodas. Sofria bullying, voltava para Kombi chorando. — Mãe, por que a gente não tem uma casa igual aos outros? — Eu abraçava ele forte, tentando segurar as lágrimas. — Porque nossa casa é onde a gente está junto, filho. — Mas, no fundo, eu mesma não acreditava nisso.
Minha mãe, Dona Lourdes, nunca aceitou minha escolha. — Carolina, você está acabando com a vida desse menino! — gritava ao telefone. — Volta pra casa, arruma um emprego decente, para de passar vergonha! — Mas eu sabia que, se voltasse, seria só mais um peso na casa dela, ouvindo críticas e cobranças. Preferi a solidão da estrada ao sufoco da convivência.
Às vezes, penso em Marcelo. Ele liga de vez em quando, pergunta do Lucas, manda o dinheiro certinho, como prometeu. Mas nunca pergunta de mim. Nunca quis saber como eu sobrevivo, se estou bem, se preciso de algo. Para ele, basta cumprir a lei, manter a consciência limpa. — Você sabe que pode contar comigo para o que precisar, Carolina — ele disse uma vez, numa ligação fria. — Só não posso voltar. — Como se eu quisesse.
A vida na estrada é feita de pequenos milagres e grandes humilhações. Já teve dia de não ter o que comer, de depender da generosidade de estranhos. Uma vez, em Montes Claros, uma senhora chamada Dona Zuleide me viu chorando no banco da praça. Sentou do meu lado, me ofereceu um pão de queijo e um café. — Deus não dá um fardo maior do que a gente pode carregar, minha filha — ela disse, segurando minha mão. Chorei como uma criança. Às vezes, um gesto de carinho vale mais do que qualquer dinheiro.
Mas também já passei por situações em que o medo foi maior que tudo. Uma noite, em um posto isolado no interior de Goiás, acordei com barulhos estranhos do lado de fora. Fiquei imóvel, segurando uma faca de cozinha, rezando para que nada acontecesse. No dia seguinte, descobri que eram só cachorros revirando o lixo, mas o susto ficou.
Lucas cresceu rápido. Hoje, com quinze anos, já entende mais do que eu gostaria. — Mãe, você acha que um dia a gente vai ter uma casa de verdade? — ele perguntou ontem, olhando para o horizonte. — Não sei, filho. Mas a gente tem um ao outro, e isso já é muito. — Ele sorriu, mas eu vi a tristeza nos olhos dele.
A solidão pesa. Não é só a falta de um parceiro, mas a ausência de uma rede, de alguém para dividir o fardo. Às vezes, invejo as famílias que vejo nos postos, rindo, viajando de férias. Para mim, cada quilômetro é uma luta, cada parada é uma incerteza. Já pensei em desistir, em voltar para Osasco, pedir desculpas para minha mãe, tentar recomeçar. Mas algo me impede. Talvez seja orgulho, talvez seja medo de admitir que fracassei.
Outro dia, em Belo Horizonte, conheci a Ana Paula, uma mulher que também viaja sozinha, mas por escolha. Ela me disse: — Carolina, a gente não precisa de ninguém para ser feliz. — Queria acreditar nisso, mas sei que, para mim, a felicidade sempre foi um luxo distante. O que eu quero é dignidade, é poder olhar para o Lucas e saber que fiz o melhor que pude.
Já tentei arrumar outros empregos, mas ninguém quer contratar uma mulher sem endereço fixo, com um filho adolescente a tiracolo. Faço artesanato, vendo nas feiras, às vezes consigo uns trocados. Lucas me ajuda, desenha, pinta, inventa histórias para distrair a cabeça. Ele é meu orgulho, meu motivo para continuar.
Hoje, enquanto escrevo esse diário, penso em tudo que já vivi. Nas noites de medo, nos dias de fome, nas pequenas alegrias. Penso nas mulheres que, como eu, carregam o peso do mundo nas costas e ainda assim seguem em frente. Penso em quantas Carolinas existem por aí, invisíveis, lutando para sobreviver num país que não perdoa quem foge do script.
Às vezes, me pergunto: será que algum dia vou encontrar um lugar para chamar de lar? Será que o Lucas vai me perdoar por essa vida errante? Ou será que, no fim das contas, tudo isso vai valer a pena?
“Será que existe mesmo um lugar para mulheres como eu, ou a gente está condenada a viver sempre na estrada, procurando um lar que talvez nunca exista? O que vocês acham?”