Crescer Sem Raízes: A História de Nicolau, o Menino Esquecido

— Não chores, Nicolau, por favor, não chores… — sussurrava a Dona Amélia, a minha primeira mãe de acolhimento, enquanto me embalava nos braços, tentando abafar o som dos meus soluços com o seu avental gasto. Mas eu chorava. Chorava porque, mesmo sem entender o mundo, sentia que faltava algo. Ou alguém.

A primeira memória que guardo é o cheiro a desinfetante do lar de acolhimento em Lisboa, misturado com o perfume doce da Dona Amélia. Tinha cinco anos e já tinha passado por três casas diferentes. Os adultos falavam baixo quando pensavam que eu não ouvia: “Coitado, nasceu com aquela doença rara… Os pais não aguentaram.” Eu não sabia o que era uma doença rara, só sabia que as outras crianças me olhavam de lado, às vezes com pena, outras vezes com medo, como se eu fosse feito de vidro.

— Porque é que ninguém me quer, Dona Amélia? — perguntei-lhe uma noite, com a voz embargada.

Ela hesitou, apertou-me contra o peito e respondeu:

— Tu és especial, Nicolau. Às vezes, as pessoas têm medo do que não conhecem. Mas tu vais encontrar o teu lugar, vais ver.

Mas as palavras dela não enchiam o vazio. Cresci a saltar de casa em casa, cada vez que uma família desistia de mim. Uns diziam que era por causa das minhas consultas constantes no hospital de Santa Maria, outros porque não conseguiam lidar com as crises de dor que me deixavam a tremer na cama. Lembro-me de uma vez, com oito anos, quando a senhora Helena, a minha terceira mãe de acolhimento, me levou ao jardim zoológico. Foi o melhor dia da minha vida. Mas, uma semana depois, ela devolveu-me ao lar. “Não consigo, desculpem. Ele precisa de mais do que eu posso dar.”

A cada devolução, sentia-me menos pessoa, mais objeto. Comecei a acreditar que havia algo de errado comigo, algo que justificava o abandono. Os outros miúdos do lar chamavam-me “o rejeitado”. Eu fingia que não me importava, mas à noite, debaixo dos lençóis ásperos, chorava baixinho, para ninguém ouvir.

Aos doze anos, conheci o Sr. António, um voluntário que vinha ler-nos histórias ao fim de semana. Ele era diferente. Não me olhava com pena, mas com curiosidade. Um dia, depois de ler “O Principezinho”, sentou-se ao meu lado e perguntou:

— Nicolau, o que é que tu mais desejas?

Pensei durante uns segundos e respondi:

— Queria saber quem sou. Queria saber porque é que me deixaram.

Ele sorriu tristemente e disse:

— Às vezes, as respostas não existem. Mas podes construir as tuas próprias.

Essas palavras ficaram comigo. Comecei a escrever num caderno velho que encontrei no lar. Escrevia cartas aos meus pais, cartas que nunca enviei. Perguntava-lhes porque me tinham deixado, se alguma vez pensavam em mim, se sabiam que eu gostava de desenhar, que era bom a matemática, que tinha medo do escuro. Escrevia até adormecer, como se as palavras pudessem preencher o buraco dentro de mim.

A adolescência foi ainda mais dura. O corpo começou a trair-me, a doença tornava-se mais visível. Os colegas da escola gozavam comigo por andar devagar, por faltar tantas vezes às aulas. “Aleijadinho”, gritavam no recreio. Eu encolhia-me, tentava desaparecer. Os professores, apesar de tentarem ajudar, não sabiam lidar comigo. Sentia-me um peso, um erro.

Aos dezasseis anos, fui transferido para uma família de acolhimento em Setúbal. Os Martins eram diferentes. Tinham dois filhos biológicos, a Joana e o Tiago, e uma paciência infinita. No início, mantive a distância. Não queria voltar a ser devolvido. Mas a Dona Rosa, a mãe, era persistente.

— Aqui em casa, todos têm lugar à mesa, Nicolau. Não és menos do que ninguém.

Demorei meses a acreditar nela. O Sr. Manuel, o pai, ensinou-me a jogar xadrez. A Joana ajudava-me com os trabalhos de casa. O Tiago, mais velho, levava-me ao futebol, mesmo sabendo que eu não podia correr como os outros. Pela primeira vez, senti que podia pertencer a algum lado.

Mas a sombra do abandono nunca me largou. Uma noite, depois de uma discussão com a Joana — ela acusou-me de ser ingrato, de não valorizar a família — fugi de casa. Andei horas pelas ruas de Setúbal, até que o Sr. Manuel me encontrou sentado num banco do jardim, encharcado pela chuva.

— Porque é que fugiste, rapaz? — perguntou, sentando-se ao meu lado.

— Tenho medo. Medo de gostar de vocês e depois ficarem fartos de mim, como os outros.

Ele ficou em silêncio, depois colocou a mão no meu ombro.

— O medo faz parte, Nicolau. Mas não podes deixar que ele te impeça de viver. Nós não somos perfeitos, mas queremos-te aqui. Só tens de dar uma oportunidade.

Voltei para casa. Aos poucos, comecei a baixar as defesas. Partilhei com a Dona Rosa as cartas que escrevia aos meus pais biológicos. Ela chorou ao lê-las e abraçou-me com força.

— O teu passado dói, meu querido, mas não te define. Tu és muito mais do que aquilo que te aconteceu.

Com o tempo, fui encontrando pequenas alegrias: um jantar em família, um aniversário celebrado, um elogio na escola. Mas a doença continuava a ser uma presença constante. Aos dezoito anos, tive uma crise grave e passei semanas internado. Os Martins estavam sempre lá, revezando-se para nunca me deixar sozinho. Pela primeira vez, senti-me verdadeiramente amado.

Quando fiz vinte anos, decidi procurar os meus pais biológicos. Com a ajuda da assistente social, consegui encontrar a morada deles, em Braga. Escrevi uma carta, pedi para os conhecer. Esperei semanas pela resposta. Um dia, recebi um envelope. Dentro, apenas uma folha, com uma frase: “Perdoa-nos. Não conseguimos.”

Chorei como nunca tinha chorado. Senti raiva, tristeza, alívio. Mas, no fundo, percebi que a resposta que procurava não estava neles, mas em mim. Voltei para Setúbal, para a minha família. Abracei a Dona Rosa, o Sr. Manuel, a Joana e o Tiago. Disse-lhes, pela primeira vez, que os amava.

Hoje, com vinte e cinco anos, continuo a lutar contra a doença, mas já não luto sozinho. Trabalho como voluntário num lar de acolhimento, leio histórias a crianças como eu, conto-lhes que o passado não define o futuro. Ainda tenho dias maus, ainda me pergunto porque fui deixado. Mas aprendi que família é quem fica, quem luta connosco, quem nos ama apesar de tudo.

Às vezes, olho para o espelho e pergunto-me: “Será que algum dia vou sentir-me inteiro?” Talvez não. Mas talvez a resposta esteja em continuar a tentar, em não desistir de procurar o meu lugar no mundo. E vocês, alguma vez sentiram que não pertencem a lado nenhum? Como encontraram o vosso lugar?