Sou Só Uma Mãe: Entre o Amor e o Esquecimento de Si Mesma
— Mãe, cadê meu uniforme? — gritou Letícia do quarto, enquanto eu tentava terminar o café na cozinha. O cheiro do pão queimado já denunciava meu atraso. Lucas apareceu logo atrás, esfregando os olhos: — Tem leite? — perguntou, sem olhar pra mim.
Eu queria responder com paciência, mas minha cabeça latejava. Dormi mal de novo, pensando nas contas, no trabalho, no que faltava na geladeira. Mas engoli o cansaço e fui buscar o uniforme no varal. Era sempre assim: eu corria, eles reclamavam, e o dia começava.
Meu nome é Ana Paula. Tenho 39 anos e sou mãe da Letícia, de 16 anos, e do Lucas, de 12. Moro em Osasco, num apartamento pequeno que parece cada vez menor conforme eles crescem. Meu marido, Rogério, sai cedo pra trabalhar e volta tarde. Às vezes parece que somos só colegas dividindo as contas e os filhos.
Quando Letícia nasceu, eu larguei a faculdade de Pedagogia pra cuidar dela. Prometi a mim mesma que voltaria depois, mas Lucas veio logo em seguida e a promessa ficou esquecida entre fraldas e mamadeiras. Agora trabalho como auxiliar administrativa numa clínica odontológica. O salário mal cobre as despesas, mas é o que consegui sem diploma.
Naquela manhã, enquanto arrumava as lancheiras apressada, ouvi Letícia bufar:
— Mãe, você não entende! Todo mundo vai na excursão da escola menos eu!
— Filha, já expliquei que não dá esse mês. O dinheiro tá curto…
Ela me olhou com aquele olhar de raiva e tristeza misturados:
— Sempre não dá! Pra todo mundo dá, menos pra mim!
Senti uma pontada no peito. Queria poder dar tudo pra ela, mas nem sempre consigo. Lucas ficou quieto, mastigando o pão com manteiga. Rogério já tinha saído sem nem dar bom dia.
No caminho pra escola, Letícia ficou mexendo no celular sem falar comigo. Lucas tentou puxar assunto:
— Mãe, posso ir jogar bola depois da aula?
— Pode, filho. Só não chega tarde.
Deixei os dois na escola e fui pro ponto de ônibus. O sol já castigava e eu suava embaixo da blusa social barata. No ônibus lotado, olhei pela janela e vi meu reflexo: olheiras fundas, cabelo preso de qualquer jeito. Quando foi que deixei de ser Ana Paula e virei só “mãe”?
No trabalho, a rotina era sempre igual: atender telefone, marcar consulta, ouvir reclamação de paciente. Minha chefe, Dona Sônia, implicava com tudo:
— Ana Paula, esse relatório tá atrasado! Preciso pra ontem!
Eu sorria amarelo e pedia desculpas. Ninguém ali sabia dos meus sonhos antigos: ser professora, viajar pelo Brasil, dançar forró até cansar. Agora tudo parecia tão distante.
No fim do expediente, recebi uma mensagem da minha mãe: “Você nunca vem me ver. Sinto sua falta.” Mais uma cobrança pra coleção.
Peguei o ônibus de volta pra casa já escuro. No caminho, pensei em como minha vida virou uma sequência de tarefas: acordar cedo, cuidar dos filhos, trabalhar, pagar contas. E onde ficou a mulher que eu era antes?
Cheguei em casa e encontrei Letícia trancada no quarto chorando. Bati na porta:
— Filha, posso entrar?
— Não! Me deixa em paz!
Sentei no chão do corredor e chorei baixinho. Lucas veio me abraçar:
— Tá tudo bem, mãe?
— Tá sim, filho… só tô cansada.
Naquela noite, Rogério chegou tarde como sempre. Sentou-se à mesa sem olhar pra mim:
— Tem janta?
— Tem sim — respondi seca.
Comemos em silêncio. Depois ele foi pro quarto ver TV e eu fiquei lavando a louça sozinha.
No domingo seguinte, tentei conversar com Rogério:
— Você acha que a gente ainda é um casal?
Ele suspirou fundo:
— Ana Paula, tô cansado. Trabalho o dia inteiro… Não tenho cabeça pra essas coisas agora.
Fiquei olhando pra ele e percebi que estávamos cada vez mais distantes. Não era só cansaço físico; era um cansaço da alma.
Na semana seguinte, Letícia chegou em casa mais tarde do que devia. Estava estranha, calada.
— Onde você estava? — perguntei preocupada.
— Com as amigas — respondeu seca.
— Que amigas? Você nunca fala delas…
Ela explodiu:
— Você não entende nada! Só sabe reclamar! Eu odeio essa casa!
Senti vontade de gritar também, mas me segurei. Lembrei de quando era adolescente e brigava com minha mãe pelas mesmas coisas.
Naquela noite não dormi. Fiquei pensando se estava falhando como mãe ou se era só a vida sendo dura mesmo.
No sábado seguinte, minha mãe ligou de novo:
— Ana Paula, você precisa cuidar de você também. Não pode viver só pros outros…
Chorei no telefone:
— Mãe, eu nem sei mais quem eu sou…
Ela ficou em silêncio por um tempo e depois disse:
— Você é minha filha antes de ser mãe dos seus filhos.
Essas palavras ficaram ecoando na minha cabeça por dias.
Na segunda-feira seguinte, acordei decidida a fazer algo por mim. Deixei as crianças na escola e fui até uma praça perto do trabalho. Sentei num banco e fiquei olhando as árvores balançando ao vento. Pela primeira vez em anos respirei fundo sem pressa.
Pensei em tudo o que abdiquei: meus sonhos, meus desejos, minha identidade. Mas também pensei no amor imenso que sinto pelos meus filhos — um amor que às vezes me sufoca mas também me dá forças pra continuar.
Quando voltei pra casa naquela noite, Letícia veio até mim:
— Mãe… desculpa por ontem.
Abracei forte minha filha e chorei junto com ela.
Lucas apareceu logo depois:
— Vocês vão ficar bem?
Sorri entre lágrimas:
— Vamos sim, filho. A gente sempre dá um jeito.
Naquela noite escrevi num caderno antigo: “Quero voltar a ser Ana Paula além de ser mãe.” Não sei como nem quando vou conseguir isso — talvez demore anos — mas pela primeira vez em muito tempo senti esperança.
Será que toda mãe sente essa solidão? Será que um dia vou conseguir ser feliz sendo só eu mesma? E você aí do outro lado: já se sentiu assim também?