Dois anos depois: Casei-me com um homem divorciado, agora peço o divórcio – A filha dele e os nossos sonhos num T0
— Não é justo, Marco! Eu também tenho direito a um pouco de paz nesta casa! — gritei, sentindo a voz tremer, enquanto a Milena batia a porta do quarto, deixando um silêncio pesado no ar.
Ele olhou para mim, cansado, os olhos fundos de quem já não dorme bem há semanas. — Ela é minha filha, Sofia. O que queres que eu faça? Que a mande embora?
A pergunta ficou a pairar, cruel. Eu sabia que não havia resposta certa. Desde que a Milena veio viver connosco, há seis meses, o nosso T0 em Benfica deixou de ser um refúgio e passou a ser um campo de batalha. Antes disso, eu e o Marco éramos cúmplices, apaixonados, sonhadores. Agora, éramos dois estranhos a tentar sobreviver ao dia seguinte.
Lembro-me do início, há dois anos. Conheci o Marco numa livraria do Chiado, entre prateleiras de romances e poesia. Ele tinha um sorriso tímido e um olhar triste, como quem já tinha perdido mais do que devia. Falámos sobre livros, sobre a vida, sobre sonhos. Ele contou-me do divórcio, da filha que via aos fins de semana. Eu, ingénua, achei que o amor tudo podia. Que juntos, reconstruiríamos o que a vida lhe tinha roubado.
Casámo-nos num verão quente, com poucos convidados e muitos planos. O nosso apartamento era pequeno, mas era nosso. Ríamos das dificuldades, fazíamos jantares improvisados no chão da sala, sonhávamos com uma casa maior, talvez um dia um filho nosso. Mas a vida não espera pelos nossos sonhos.
A ex-mulher do Marco, a Rita, decidiu emigrar para o Luxemburgo. Milena, com 12 anos, ficou connosco. No início, tentei ser amiga, confidente, quase uma irmã mais velha. Mas a Milena nunca me aceitou. Olhava-me como se eu fosse uma intrusa, alguém que roubou o lugar da mãe. E o Marco, dividido, tentava agradar a todos, acabando por não agradar a ninguém.
As discussões começaram por coisas pequenas: a loiça por lavar, a televisão demasiado alta, os trabalhos de casa espalhados pela mesa. Mas rapidamente cresceram. Milena começou a chegar tarde da escola, a responder-me torto, a trancar-se no quarto. Eu sentia-me cada vez mais sozinha, como se o meu casamento tivesse desaparecido sem eu dar por isso.
— Sofia, tens de ter paciência. Ela está a passar por uma fase difícil — dizia o Marco, sempre a desculpá-la.
— E eu? Eu também não estou? — respondia, sentindo a raiva e a tristeza misturarem-se dentro de mim.
As noites tornaram-se longas. O Marco dormia no sofá, dizia que era para não me incomodar, mas eu sabia que era para fugir às conversas. A Milena ouvia música até tarde, batia com as portas, ignorava-me. Eu comecei a evitar ir para casa. Ficava mais tempo no trabalho, inventava desculpas para sair com amigas. O nosso apartamento, que antes era um ninho, tornou-se uma prisão.
Um dia, cheguei a casa e encontrei a Milena a chorar no sofá. O Marco não estava. Sentei-me ao lado dela, sem saber o que dizer.
— O que foi, Milena?
Ela olhou para mim, os olhos vermelhos. — Odeio isto. Odeio esta casa. Odeio a minha vida.
Senti uma pontada no peito. — Eu sei que não é fácil. Mas estamos todos a tentar…
— Tu não és a minha mãe! — gritou, levantando-se de rompante e fugindo para o quarto.
Fiquei ali, sozinha, a olhar para a porta fechada. Senti-me inútil, derrotada. Liguei à minha mãe, em lágrimas. Ela ouviu-me em silêncio, depois disse:
— Filha, às vezes o amor não chega. Tens de pensar em ti também.
As palavras dela ecoaram na minha cabeça durante dias. O Marco tentava manter a paz, mas eu via-o cada vez mais distante. Começámos a discutir por tudo e por nada. Ele acusava-me de não tentar o suficiente, eu acusava-o de me deixar sozinha. A Milena, no meio, sofria em silêncio.
Uma noite, depois de mais uma discussão, o Marco saiu de casa. Fiquei sentada na cama, a olhar para as paredes brancas, vazias. Perguntei-me onde tinha ido parar a mulher feliz que acreditava no amor acima de tudo. Senti-me velha, cansada, desiludida.
No dia seguinte, o Marco voltou. Sentou-se à minha frente, os olhos vermelhos de chorar.
— Sofia, eu amo-te. Mas não sei se consigo continuar assim. Não quero perder a minha filha, mas também não quero perder-te a ti.
Olhei para ele, sentindo o peso de todas as escolhas erradas. — Talvez já nos tenhamos perdido há muito tempo, Marco.
Os dias seguintes foram um arrastar de silêncios, de olhares vazios, de rotinas automáticas. A Milena fechou-se ainda mais. Eu comecei a procurar casas para alugar, a pensar em recomeçar do zero. O divórcio tornou-se inevitável.
Agora, sentada no banco do jardim, com os papéis do divórcio na mão, olho para trás e vejo tudo o que perdemos. Os sonhos, as promessas, o amor que achávamos inabalável. Pergunto-me se poderia ter feito diferente, se teria sido possível salvar-nos.
Talvez o amor não seja suficiente quando a vida se torna demasiado apertada. Talvez, às vezes, seja preciso coragem para partir, para nos reencontrarmos. Mas será que algum dia vou conseguir perdoar-me por não ter conseguido ser a mulher, a esposa, a madrasta que todos esperavam?
E vocês, já sentiram que o amor não chega? O que fariam no meu lugar?