O Melhor Marido é Aquele que Não Está: Diário de uma Solidão

— Mãe, tá tudo bem, preciso desligar. Depois te ligo, tá? — a voz apressada da Mariana ecoou pelo telefone, cortando qualquer tentativa minha de prolongar a conversa. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Fiquei ali, sentada na beirada da cama, olhando para o celular como se ele pudesse me devolver o tempo em que minha filha precisava de mim para tudo.

Seis anos. Seis longos anos desde que o Rogério saiu por aquela porta com uma mala nas costas e um olhar de quem já estava longe há muito tempo. No começo, achei que era só mais uma briga, dessas que a gente tem e depois esquece. Mas não foi. Ele não voltou. E eu fiquei.

A casa, que antes era pequena demais para tanta vida, agora parecia um labirinto de ecos e lembranças. O cheiro do café pela manhã já não era o mesmo sem as risadas da Mariana ou o resmungo do Rogério reclamando do açúcar. O relógio da sala marcava as horas, mas parecia zombar da minha solidão.

No trabalho, as colegas cochichavam sobre os maridos, os filhos, as viagens em família. Eu sorria, fingia interesse, mas por dentro sentia um buraco crescendo. A dona Lúcia, minha vizinha de porta, sempre dizia:

— Kamila, você precisa sair mais! Vai pra um forró, arruma um namorado!

Eu só ria. Não tinha vontade de dançar nem de me apaixonar de novo. Depois de tudo que vivi com Rogério, quem garante que não vou me decepcionar outra vez?

Às vezes me pego pensando se fui eu quem errou. Se fui dura demais, exigente demais, ou se simplesmente o amor acaba mesmo e ninguém tem culpa. Mas nessas horas lembro das noites em claro esperando ele voltar do bar, das mentiras pequenas que viraram muralhas entre nós. Lembro do dia em que Mariana me olhou com olhos tristes e disse:

— Mãe, por que você não vai embora também?

Mas eu fiquei. Fiquei por ela, por medo, por costume. E quando finalmente Rogério foi embora, senti alívio e culpa ao mesmo tempo.

Mariana casou cedo, com o Rafael — um rapaz bom, trabalhador, mas que levou minha menina pra longe. Foram morar em Porto Alegre primeiro, depois Guaíba e agora Garanhuns. Cada mudança era uma despedida nova. Ela ligava cada vez menos. As conversas eram rápidas: “Mãe, tá tudo bem”, “Mãe, tô com pressa”, “Mãe, depois te ligo”.

No Natal passado, ela nem veio. Mandou uma foto pelo WhatsApp: ela sorrindo ao lado do Rafael e da sogra. Senti um aperto no peito tão grande que precisei sentar. Passei a noite olhando para a árvore vazia na sala.

Outro dia encontrei uma caixa com cartas antigas no fundo do armário. Eram bilhetes meus para Rogério: “Te amo”, “Volta logo”, “Senti sua falta”. Li cada um como quem lê a história de outra pessoa. Chorei baixinho para não assustar a dona Lúcia do outro lado da parede fina.

No supermercado, vejo casais discutindo sobre qual arroz comprar e sinto inveja até das brigas alheias. Sinto falta de alguém pra dividir as pequenas decisões do dia a dia: qual novela assistir, se chove amanhã, se o feijão tá bom de sal.

Uma vez tentei sair com um colega do trabalho, o Paulo Sérgio. Ele era gentil, pagou o jantar e me elogiou. Mas quando cheguei em casa senti um vazio maior ainda. Não era ele que eu queria — talvez não queira mais ninguém.

Minha mãe sempre dizia: “O melhor marido é aquele que não está”. Eu achava graça dessa frase quando era jovem e sonhava com casamento perfeito. Hoje entendo: às vezes é melhor estar só do que mal acompanhada.

Mas a solidão pesa. Principalmente à noite, quando a casa escurece e os pensamentos fazem festa na minha cabeça. Penso na Mariana: será que ela é feliz? Será que sente minha falta? Será que um dia vai entender minhas escolhas?

Outro dia tentei ligar pra ela de novo:
— Filha, só queria ouvir sua voz…
— Mãe, tô no mercado agora! Depois te ligo!

Desliguei antes que ela percebesse meu choro contido.

No domingo passado fui à feira sozinha. Comprei flores amarelas só pra alegrar a casa. A moça da banca sorriu pra mim:
— Pra quem são?
— Pra mim mesma — respondi.
Ela sorriu mais ainda:
— Isso aí! A gente tem que se amar primeiro.

Voltei pra casa pensando nisso. Talvez seja hora de aprender a gostar da minha própria companhia. De preencher os silêncios com música ou livros em vez de saudade.

À noite escrevi no meu diário:
“Hoje comprei flores pra mim. Não chorei ao ver a foto da Mariana no celular. Não liguei pro Rogério nem pensei nele antes de dormir.”

Talvez seja assim que começa: um dia de cada vez.

Mas ainda me pergunto: será que algum dia vou deixar de sentir esse vazio? Será que a Mariana vai entender tudo o que fiz por ela? Ou será que toda mãe está destinada a ser esquecida quando os filhos criam asas?

E você aí do outro lado: já sentiu esse vazio também? Como preencheu os silêncios da sua vida?