Entre as Ruas de Belo Horizonte: O Peso das Lembranças
— Você nunca vai entender, mãe! — gritei, batendo a porta do quarto com força. O eco do meu desespero percorreu o apartamento, misturando-se ao cheiro de café fresco vindo da cozinha. Era mais uma noite em que eu voltava tarde do trabalho, exausto, e tudo o que queria era silêncio. Mas minha mãe insistia em falar da Ana, como se mencionar seu nome fosse me curar.
Meu nome é Rafael Souza, tenho 29 anos e moro em Belo Horizonte. Trabalho como motorista de aplicativo desde que perdi meu emprego na gráfica. A vida nunca foi fácil, mas depois que a Ana se foi, tudo ficou mais pesado. Ela era minha namorada desde a adolescência. Conhecemo-nos na escola estadual do bairro Santa Tereza. Ela ria alto, usava tranças e sempre tinha um livro de poesia na bolsa. Eu era tímido, mas com ela tudo parecia possível.
Naquela noite fatídica, há pouco mais de um ano, tudo mudou. Eu voltava do trabalho, cansado, pensando em como pedir desculpas por mais uma discussão boba. Quando dobrei a esquina da Rua Sapucaí, vi Ana do outro lado da rua. Ela parecia distraída, mexendo no celular. Um ônibus passou rápido demais. O som dos freios ainda ecoa nos meus pesadelos.
Desde então, toda vez que a saudade aperta, venho para cá. Estaciono o carro no mesmo lugar e fico olhando para a calçada, esperando vê-la surgir entre as sombras dos postes. Imagino como seria se ela aparecesse de repente, sorrindo, dizendo: “Cê tá bobo, Rafael? Que surpresa boa!”
Minha mãe diz que preciso seguir em frente. Meu pai só balança a cabeça e volta para o jornal. Meu irmão mais novo, Lucas, evita falar comigo desde que briguei com ele por causa de uma besteira qualquer. A verdade é que todos aqui em casa estão tentando sobreviver ao próprio jeito.
Uma noite dessas, enquanto eu esperava no carro, vi uma moça parecida com a Ana atravessando a rua. Meu coração disparou. Saí correndo atrás dela.
— Ana! — gritei.
Ela se virou assustada. Não era Ana. Era Camila, uma vizinha antiga que não via há anos.
— Rafael? Você tá bem?
— Desculpa… achei que fosse outra pessoa.
Camila ficou me olhando com pena. Odeio esse olhar. Odeio quando as pessoas falam comigo como se eu fosse feito de vidro.
No dia seguinte, minha mãe me esperava na cozinha.
— Filho, você precisa conversar com alguém. Isso não é vida…
— Mãe, por favor…
— Você acha que só você sente falta dela? Eu também gostava da Ana. Mas você não pode se perder assim.
Fiquei em silêncio. Ela tinha razão, mas eu não queria admitir.
No trabalho, os passageiros entram e saem do carro como fantasmas. Às vezes alguém comenta sobre o trânsito caótico da cidade ou sobre o último jogo do Galo. Eu sorrio e concordo, mas minha mente está sempre longe.
Certa tarde, peguei uma corrida para o bairro Floresta. Era uma senhora idosa chamada Dona Zuleide. Ela entrou no carro com dificuldade e logo puxou conversa.
— Você parece triste, meu filho…
Sorri sem vontade.
— Só cansado mesmo.
— Cansado ou com o coração apertado?
Olhei pelo retrovisor e vi seus olhos gentis.
— Perdi alguém importante — confessei.
Ela assentiu.
— A dor nunca passa, mas a gente aprende a carregar…
Depois daquela corrida, fiquei pensando nas palavras dela. Talvez eu estivesse mesmo me afundando na dor.
Em casa, tentei conversar com Lucas.
— Desculpa por ter sido grosso aquele dia…
Ele deu de ombros.
— Tá tudo bem… Sinto falta dela também.
Nos abraçamos em silêncio. Pela primeira vez em meses chorei sem vergonha.
Os dias foram passando e comecei a sair mais de casa. Voltei a jogar futebol com os amigos na quadra da praça Sete. Minha mãe sorriu quando me viu calçando as chuteiras velhas.
— Isso aí, filho… Vai viver um pouco.
No aniversário da Ana, levei flores ao cemitério e sentei ao lado do túmulo dela. Falei sobre tudo: sobre o trabalho difícil, sobre as brigas em casa e sobre como sentia falta do seu sorriso.
— Sabe, Ana… Eu achei que nunca ia conseguir seguir em frente sem você. Mas acho que tô aprendendo… devagarzinho.
Na volta pra casa, parei na Rua Sapucaí mais uma vez. O sol se punha atrás dos prédios e as luzes da cidade começavam a acender. Fechei os olhos e respirei fundo.
Talvez eu nunca supere completamente a perda da Ana. Talvez sempre exista um vazio dentro de mim. Mas agora entendo que não estou sozinho nessa dor — minha família também sente falta dela à sua maneira.
A vida segue seu curso estranho e imprevisível pelas ruas de Belo Horizonte. E eu sigo tentando encontrar sentido entre as lembranças e os recomeços.
Será que um dia a saudade deixa de doer tanto? Ou será que aprender a viver é justamente aceitar que algumas dores vão caminhar ao nosso lado para sempre?