Remédio para a Tristeza
— Rafael, o que a gente vai fazer agora? — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto eu encarava o teste de farmácia sobre a pia do banheiro do nosso minúsculo apartamento de estudantes em Belo Horizonte. Ele ficou parado na porta, os olhos arregalados, como se tivesse levado um soco no estômago.
— Calma, Luiza… a gente… a gente dá um jeito — ele tentou segurar minha mão, mas eu me afastei. O medo me consumia. Eu sempre fui aquela menina certinha, filha de professora e motorista de ônibus, criada no bairro São Gabriel, cheia de sonhos e planos. Rafael era meu porto seguro desde o primeiro período da faculdade de História. A gente se conheceu na fila do RU, riu das mesmas piadas ruins e dividiu o mesmo colchão de solteiro no alojamento. Mas filho? Agora?
Sentei no chão frio do banheiro e chorei. Chorei por tudo: pelo TCC que eu não sabia se ia terminar, pelo estágio que talvez tivesse que largar, pela minha mãe que sempre sonhou em me ver formada. Chorei pelo medo de decepcionar todo mundo. Rafael sentou ao meu lado, me abraçou forte e ficou em silêncio. O silêncio dele doía mais do que qualquer palavra.
No dia seguinte, liguei pra minha mãe. Ela atendeu com aquela voz animada de sempre:
— Oi, filha! Tá tudo bem?
— Mãe… eu preciso te contar uma coisa — minha voz falhou. Ela ficou muda por alguns segundos.
— Luiza, você tá grávida?
Eu só consegui chorar. Ela suspirou fundo.
— Filha… você sabe que não vai ser fácil. Mas a gente vai dar um jeito. Você não tá sozinha.
O problema era meu pai. Quando ele soube, ficou uma semana sem falar comigo. Só depois de muita insistência da minha mãe ele me ligou:
— Luiza, você jogou tudo fora por causa desse moleque? — ele gritou. — Eu ralei a vida inteira pra te dar estudo! Agora vai largar tudo pra ser mãe solteira?
— Pai, o Rafael tá comigo. Ele não vai me abandonar.
— Veremos — ele desligou na minha cara.
Os dias seguintes foram um borrão de enjoo, medo e incerteza. Rafael tentava ser forte por nós dois, mas eu via nos olhos dele o mesmo pânico que sentia. Nossos amigos começaram a se afastar. As festas do alojamento já não faziam sentido pra mim. Eu via as meninas indo pra balada enquanto eu pesquisava nomes de bebê no Google.
Uma noite, depois de mais uma briga por causa de dinheiro (o aluguel atrasado, o cartão estourado), Rafael explodiu:
— Eu não sei se dou conta disso, Luiza! Eu também tô perdido!
— Você acha que eu não tô? — gritei de volta. — Mas agora é tarde! A gente tem que ser forte!
Ele saiu batendo a porta. Fiquei sozinha com o barulho da chuva e o som do meu próprio choro. Naquela noite, pensei em desistir de tudo. Em sumir. Mas lembrei da minha mãe dizendo: “Você não tá sozinha”.
No dia seguinte, Rafael voltou com os olhos vermelhos.
— Me desculpa — ele sussurrou. — Eu só tô com medo. Mas eu amo você. E vou amar esse bebê também.
Aos poucos, fomos nos adaptando à nova rotina. Rafael conseguiu um bico numa lanchonete perto da faculdade. Eu continuei indo às aulas com a barriga crescendo e os olhares das pessoas me acompanhando pelos corredores. Alguns professores foram compreensivos; outros nem tanto.
Minha mãe começou a vir todo fim de semana pra me ajudar com as compras e as consultas do pré-natal. Meu pai continuava distante, mas às vezes mandava mensagem perguntando se eu estava bem.
O parto foi difícil. Passei horas em trabalho de parto no Hospital das Clínicas, com Rafael segurando minha mão e minha mãe chorando ao meu lado. Quando ouvi o primeiro choro da minha filha, Isabela, senti uma força que nunca imaginei ter.
Os meses seguintes foram ainda mais duros: noites sem dormir, contas acumulando, Rafael exausto entre o trabalho e as aulas noturnas. Eu quase desisti da faculdade quando Isabela ficou doente pela primeira vez. Mas minha mãe insistiu:
— Não larga agora, filha! Você chegou tão longe!
Com a ajuda dela e de uma vizinha solidária do prédio, consegui terminar o TCC entre mamadas e trocas de fralda.
No dia da minha formatura, meu pai apareceu de surpresa na plateia. Quando me viu subir no palco com Isabela no colo e Rafael ao meu lado, ele chorou pela primeira vez na vida.
Depois da cerimônia, ele me abraçou forte:
— Me perdoa, filha… Eu só queria te proteger.
Hoje olho pra trás e vejo que nada saiu como planejei. Mas aprendi que felicidade não é ausência de tristeza ou dificuldade — é encontrar força onde menos se espera.
Às vezes ainda me pergunto: será que teria sido diferente se eu tivesse feito outras escolhas? Será que algum dia vou deixar de sentir medo do futuro? E vocês aí… já sentiram esse medo também?