Sempre Estarás no Meu Coração
— Mãe, o arroz tá queimando! — gritou a Mariana da sala, enquanto eu tentava virar os bifes na frigideira, o suor escorrendo pela testa. O cheiro forte de arroz queimado se espalhou pela casa, misturando-se ao perfume doce do bolo de fubá que ainda assava no forno. Eu queria chorar, mas não podia. Não agora. Não com tudo desmoronando ao meu redor.
O barulho do motor do carro do Rafael cortou meus pensamentos. Ele sempre chegava nesse horário, mas hoje eu não tinha conseguido terminar o jantar a tempo. Desde que minha mãe ficou doente, tudo ficou mais difícil. Era como se o tempo tivesse encurtado e as tarefas se multiplicassem. Lavei as mãos rapidamente e tentei disfarçar a ansiedade.
— Mãe, ele chegou! — Mariana repetiu, dessa vez mais baixo, como se sentisse o peso do clima tenso em casa.
Rafael entrou pela porta com passos pesados. Largou a mochila no chão e olhou para mim com aquele olhar cansado que ele vinha carregando há semanas.
— De novo atrasada com o jantar, Ana? — disse ele, sem levantar a voz, mas cada palavra parecia uma faca.
— Desculpa, Rafael. Hoje foi difícil no hospital com a mãe. Ela teve febre de novo e precisei ficar mais tempo lá — respondi, tentando não deixar minha voz tremer.
Ele suspirou fundo e foi para o quarto sem dizer mais nada. Mariana me olhou com pena e eu senti vontade de pedir desculpas a ela também, por não ser a mãe forte e presente que ela merecia.
Enquanto terminava de preparar a comida, minha cabeça girava em torno dos exames da minha mãe. O médico tinha dito que era grave, mas eu não queria acreditar. Ela sempre foi meu porto seguro, minha referência. Agora era eu quem precisava ser forte por ela — e por todos aqui em casa.
O jantar foi silencioso. Rafael mexia no celular, Mariana empurrava o arroz queimado no prato e eu tentava engolir a comida junto com o nó na garganta. Quando terminei de lavar a louça, sentei na varanda e deixei as lágrimas caírem.
Minha irmã mais velha, Luciana, ligou naquele momento.
— Ana, como tá a mãe? — perguntou ela, sempre direta.
— Não tá bem, Lu. O médico disse que talvez precise internar de novo. Eu não sei mais o que fazer — respondi, tentando conter o soluço.
— Você não pode fazer tudo sozinha! Eu sei que moro longe, mas posso tentar ir aí no fim de semana — disse ela, mas eu sabia que era difícil pra ela largar o emprego em São Paulo.
— Só queria que as coisas fossem como antes…
— Eu também, mana. Mas agora é hora de ser forte. Por ela. Por você mesma.
Desliguei o telefone sentindo um vazio ainda maior. Rafael saiu do quarto e sentou ao meu lado na varanda.
— Desculpa ter sido grosso — disse ele, olhando pro chão. — Eu só tô cansado também…
— Eu sei. Tá difícil pra todo mundo — respondi baixinho.
Ele segurou minha mão e ficou em silêncio comigo por alguns minutos. Era raro esses momentos de cumplicidade ultimamente.
No dia seguinte, acordei cedo para levar Mariana à escola e depois fui direto para o hospital. Minha mãe estava pálida, mas sorriu quando me viu.
— Filha… você tá se cuidando? — perguntou ela com aquela voz fraca.
— Tô sim, mãe. Fica tranquila — menti, porque sabia que ela precisava acreditar nisso.
Passei horas ao lado dela, ouvindo histórias do passado e tentando gravar cada detalhe do seu rosto na memória. Quando voltei pra casa, encontrei Rafael discutindo com Mariana sobre as notas da escola.
— Você precisa estudar mais! — ele dizia, impaciente.
— Eu tô tentando! Mas tá tudo tão difícil… — Mariana chorava baixinho.
Me meti na conversa antes que piorasse.
— Rafael, deixa que eu converso com ela depois. Vai descansar um pouco.
Ele saiu resmungando e eu abracei Mariana forte.
— Desculpa por tudo isso, filha…
Ela me olhou com olhos marejados:
— Vai ficar tudo bem com a vovó?
Eu queria prometer que sim, mas não consegui mentir dessa vez. Apenas segurei sua mão e ficamos assim por um tempo.
Os dias seguintes foram uma mistura de esperança e desespero. Luciana conseguiu vir passar um fim de semana conosco e trouxe um pouco de leveza para casa. Juntas, cuidamos da mãe no hospital e tentamos relembrar os bons momentos da infância: as festas juninas no quintal, os almoços de domingo cheios de risadas e brigas bobas.
Mas a doença avançava rápido demais. Em uma noite chuvosa de junho, recebi a ligação do hospital: minha mãe tinha partido.
O mundo parou naquele instante. Senti como se tivesse perdido o chão sob meus pés. Rafael me abraçou forte pela primeira vez em meses e Mariana chorou no meu colo até adormecer.
O velório foi simples, mas cheio de amor. Amigos antigos apareceram para dar um último adeus à mulher que sempre acolheu todos com um sorriso e um prato de comida quente. Luciana ficou mais alguns dias conosco e juntas tentamos reorganizar a vida sem nossa mãe.
A dor da perda ainda me acompanha todos os dias. Às vezes me pego falando sozinha na cozinha, esperando ouvir a voz dela me dando conselhos ou reclamando do tempero fraco do feijão.
Rafael mudou depois disso. Passou a ajudar mais em casa e a ouvir Mariana com mais paciência. Acho que todos nós aprendemos algo sobre amor e resiliência nesse processo doloroso.
Hoje, sentada na varanda onde tantas vezes chorei escondida, olho para o céu estrelado e penso: será que algum dia vou conseguir ser tão forte quanto minha mãe foi? Será que estou fazendo certo ao tentar segurar tudo sozinha?
E você? Já sentiu esse medo de não dar conta? Como encontrou forças para seguir em frente?