Três Olhares Sobre a Mesma Vida

— Olha só pra isso, dona Marta! — minha voz saiu mais amarga do que eu queria, mas não consegui evitar. — Maçã pequena, cheia de mancha, e o preço lá em cima. Antigamente, a gente comprava fruta boa, doce, sem precisar escolher tanto. Agora, olha só… O mundo tá mesmo perdido.

Dona Marta me olhou por cima dos óculos, ajeitando o lenço florido na cabeça. Ela sempre tinha aquele sorriso calmo, como se nada pudesse abalar sua paz. — Ah, Lúcia, mas pensa bem… Depois de tanta seca esse ano, até essas maçãs são um presente. O importante é que a gente ainda tem o que levar pra casa. Tem gente que nem isso consegue.

Antes que eu respondesse, a terceira mulher se aproximou do nosso lado do balcão. Era a dona Cida, aquela que todo mundo conhece por ser direta demais. — Vocês duas só reclamam ou agradecem? — ela disse, rindo alto. — Eu vejo essas maçãs e penso: pelo menos não são veneno puro igual aquelas de supermercado. E outra: minha neta adora fazer bolo com elas, mesmo feinhas assim.

Fiquei em silêncio por um instante, sentindo o peso das palavras delas. Meu marido tinha perdido o emprego há dois meses. O dinheiro mal dava pra pagar o aluguel e comprar comida simples. Cada centavo contado. E ali estava eu, reclamando das maçãs, como se fosse culpa delas tudo que estava errado na minha vida.

— Sabe o que é, dona Marta? — tentei explicar, mas minha voz falhou. — É que tá tudo tão difícil… Meu marido ainda não conseguiu trabalho novo. Meu filho mais velho tá pensando em largar a escola pra ajudar em casa. Eu só queria que as coisas fossem como antes.

Ela me tocou no braço com carinho. — Lúcia, minha filha, eu já passei por tanta coisa nessa vida… Perdi meu marido cedo, criei três filhos sozinha. Teve época que nem farinha tinha pra fazer bolo. Mas sabe o que aprendi? Que a gente precisa olhar pro que tem, não pro que falta.

Dona Cida concordou com a cabeça. — E reclamar não enche barriga, viu? Se quiser, te ensino uma receita de bolo de maçã que rende bastante e engana a fome das crianças.

O feirante, seu Antônio, ouviu nossa conversa e se aproximou. — Dona Lúcia, leva essas aqui — ele disse, separando algumas maçãs menos bonitas. — Faço mais barato pra senhora hoje. Sei que as coisas não estão fáceis.

Senti os olhos marejarem. Não era só pelas maçãs ou pelo preço. Era por tudo: a luta diária, o medo do futuro dos meus filhos, a saudade de quando meu marido sorria mais e se preocupava menos.

Peguei as maçãs e agradeci baixinho. Enquanto caminhava para casa com as sacolas pesando nos braços e no coração, pensei nas palavras da dona Marta e da dona Cida. Será que eu estava mesmo enxergando só o lado ruim das coisas?

Em casa, meu filho caçula veio correndo me abraçar. — Mãe! Trouxe maçã? Faz aquele bolo gostoso?

Sorri pela primeira vez naquele dia. — Trouxe sim, meu amor. Hoje vai ter bolo.

Enquanto descascava as maçãs na cozinha apertada, ouvi meu marido conversando baixo com nosso filho mais velho na sala:

— Pai… Se eu arrumar um bico na oficina do seu Zé, posso ajudar nas contas…
— Não quero que você largue a escola, filho. Eu vou dar um jeito.
— Mas tá difícil…

Meu coração apertou ainda mais. Queria protegê-los de tudo, mas sabia que não podia controlar o mundo lá fora.

No fim da tarde, com o cheiro do bolo espalhado pela casa, sentei à mesa com minha família. O bolo não era perfeito: as maçãs estavam meio azedas e a massa ficou um pouco solada. Mas todos comeram sorrindo.

— Tá uma delícia, mãe! — disse meu caçula com a boca cheia.

Olhei para eles e percebi: talvez a felicidade estivesse mesmo nessas pequenas coisas — um bolo simples num dia difícil, um gesto de carinho no mercado, uma palavra amiga quando tudo parece desabar.

Naquela noite, antes de dormir, fiquei pensando nas três mulheres diante das maçãs no mercado: uma via só o problema; outra via esperança; a terceira buscava solução prática.

Qual delas sou eu? Qual delas você seria?

Às vezes me pergunto: será que estamos olhando para a vida do jeito certo? Ou será que precisamos aprender a enxergar além das manchas das nossas próprias maçãs?