Segredos Ardentes: O Diário de uma Noite na Fazenda
O cheiro de queimado invadiu o quarto como uma bofetada. Acordei com o coração disparado, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. — Mãe! — gritei, a voz falhando. Ela já estava de pé, olhos arregalados, segurando o meu braço com força. — Fica atrás de mim, Lucas! — sussurrou, puxando-me para longe da janela. Lá fora, a noite estava estranhamente clara, iluminada pelo fogo que lambia o celeiro da fazenda do Seu Arlindo.
O fogo crepitava alto, e os gritos dos animais se misturavam ao estalo das madeiras queimando. Corremos para fora, junto com outros trabalhadores. Seu Arlindo berrava ordens, mas ninguém sabia o que fazer primeiro: salvar os bois, apagar as chamas ou proteger as próprias vidas. Minha mãe me empurrou para perto do poço. — Pega água, Lucas! Rápido!
Enquanto corria com o balde, vi Dona Cida chorando perto do galinheiro. — Foi ele! Eu vi! — soluçava. Ninguém lhe dava ouvidos. O fogo parecia consumir não só o celeiro, mas também a pouca esperança que restava naquele lugar.
Trabalhávamos ali há seis meses. Depois que meu pai morreu num acidente de ônibus na estrada de terra, não tínhamos mais pra onde ir. Seu Arlindo ofereceu abrigo e comida em troca de trabalho. Parecia justo no começo. Mas logo percebemos que não era bem assim: trabalhávamos de sol a sol, sem salário, comendo restos e dormindo num quarto úmido ao lado da cozinha.
Naquela noite, enquanto todos tentavam conter o incêndio, ouvi um barulho estranho vindo do fundo do terreno. Um choro abafado, quase um lamento. Olhei para minha mãe; ela também ouviu. — Fica aqui — disse ela, mas eu a segui mesmo assim.
Nos esgueiramos até o velho galpão abandonado. A porta estava entreaberta e um facho de luz escapava por ela. Dentro, Seu Arlindo discutia com um homem que eu nunca tinha visto antes. — Eu já disse que não quero mais isso aqui! — gritava Seu Arlindo, a voz rouca de raiva.
— Você não tem escolha — respondeu o estranho. — Ou faz como combinamos ou tudo vem à tona.
Minha mãe me puxou para trás da parede. O medo me paralisou. O que eles estavam escondendo? Por que aquele homem ameaçava Seu Arlindo?
De repente, ouvimos passos se aproximando. Nos encolhemos atrás de uns sacos de milho mofados. O estranho saiu do galpão e caminhou em direção à mata. Meu coração batia tão forte que eu achava que todos podiam ouvir.
— A gente precisa sair daqui — sussurrou minha mãe. Mas como? Não tínhamos dinheiro nem para pegar o ônibus até a cidade mais próxima.
Na manhã seguinte, o celeiro era só cinzas e fumaça. Seu Arlindo estava mais nervoso do que nunca. Reuniu todos os trabalhadores no pátio.
— Isso aqui foi sabotagem! — gritou, olhando para cada um de nós como se fôssemos culpados. — Quem souber de alguma coisa vai falar agora!
Ninguém respondeu. O medo era maior do que a raiva.
À noite, minha mãe me chamou no canto do quarto.
— Lucas, precisamos dar um jeito de sair daqui antes que algo pior aconteça. Eu ouvi aquele homem falando sobre tráfico de gente… Acho que eles estão trazendo pessoas pra trabalhar aqui à força.
Meu estômago revirou. Lembrei dos rostos cansados dos outros trabalhadores, das crianças que nunca iam à escola, das mulheres sempre caladas.
— E se a gente contar pra polícia? — perguntei.
Ela balançou a cabeça.
— Eles têm medo do Seu Arlindo. Ele conhece todo mundo na delegacia.
Naquela noite não dormi. Fiquei pensando em como fugir dali sem sermos pegos.
Dois dias depois, Dona Cida desapareceu. Disseram que ela tinha ido embora com um parente distante, mas ninguém acreditou. Minha mãe ficou ainda mais tensa.
— Isso não vai acabar bem — murmurou.
Na semana seguinte, o estranho voltou à fazenda. Vi ele conversando com Seu Arlindo perto do curral. Eles pareciam discutir sobre dinheiro e documentos falsos.
Foi então que decidi agir. Escrevi tudo o que sabia num caderno velho: nomes, datas, conversas que ouvi escondido. Escondi o caderno no fundo da minha mochila.
Numa madrugada chuvosa, minha mãe me acordou às pressas.
— Agora! Vamos!
Saímos em silêncio pela porta dos fundos, levando só o necessário: um pouco de comida, meus documentos e o caderno com as provas.
Andamos horas pela estrada de terra até chegar na cidade vizinha. Fomos direto à igreja pedir ajuda ao Padre João, que era conhecido por acolher gente em apuros.
Ele nos ouviu com atenção e prometeu nos proteger até conseguirmos falar com alguém confiável da polícia federal.
Os dias seguintes foram uma mistura de medo e esperança. Sabíamos que Seu Arlindo podia nos procurar a qualquer momento.
Finalmente conseguimos entregar o caderno às autoridades certas. Uma investigação foi aberta e a fazenda foi fechada meses depois. Muitos trabalhadores foram libertos; outros nunca mais foram encontrados.
Hoje moro com minha mãe numa casinha simples na periferia de Goiânia. Ela trabalha como cozinheira numa escola municipal e eu estudo à noite para terminar o ensino médio.
Às vezes ainda acordo assustado com cheiro de fumaça ou barulho de madeira queimando. Mas sei que fizemos a coisa certa.
Será que algum dia vamos conseguir esquecer tudo o que vivemos naquela fazenda? Ou certos segredos ficam pra sempre queimando dentro da gente?