Casamento de Vingança: Entre o Amor e a Dor
— Você nunca vai entender, Maria! — gritei, sentindo minha voz ecoar pelo pequeno apartamento em Belo Horizonte. Ela me olhou com aqueles olhos castanhos, cheios de lágrimas e culpa. — Olguer, por favor… não faz isso com a gente — ela sussurrou, mas eu já estava decidido. O cheiro do café queimado na cozinha misturava-se ao cheiro amargo da traição.
Dois anos juntos. Dois anos em que eu, Olguer, dediquei tudo a ela. Mudei de cidade, larguei meu emprego estável como analista de sistemas em Contagem para seguir Maria e seus sonhos de ser artista plástica. Acreditei em cada palavra dela, em cada promessa de futuro. Mas toda vez que eu tocava no assunto de casamento, ela desviava, mudava de assunto, dizia que não era hora.
Até que um dia, voltando mais cedo do trabalho temporário que arranjei só para ficar perto dela, encontrei Maria no sofá com outro homem. Não precisei ouvir nada. O olhar dela dizia tudo: culpa, medo, arrependimento. Saí sem dizer uma palavra. Passei a noite andando pelas ruas do bairro Floresta, tentando entender onde foi que eu errei.
No dia seguinte, Nadja apareceu na minha vida como um raio. Ela era colega de faculdade da minha irmã, sempre sorridente, sempre pronta para ajudar. Me encontrou sentado num barzinho, afogado em cachaça barata e mágoa. — Você não merece isso, Olguer — ela disse, colocando a mão sobre a minha. — Vem comigo, deixa eu te mostrar que existe vida além da Maria.
Eu sabia que Nadja gostava de mim há tempos. Sempre percebi os olhares dela nos churrascos de família, as mensagens carinhosas no WhatsApp. Naquele momento, decidi usar o sentimento dela como escudo para minha dor. Começamos a sair juntos; no início era só companhia, depois virou refúgio.
Minha mãe ficou radiante quando contei que estava namorando Nadja. — Finalmente você vai esquecer aquela menina complicada! — exclamou Dona Lourdes enquanto preparava o almoço de domingo. Meu pai só balançou a cabeça, desconfiado do ritmo acelerado das coisas.
Em menos de seis meses, pedi Nadja em casamento. Fiz questão de postar tudo nas redes sociais: fotos do pedido no topo da Serra do Curral, declarações apaixonadas (falsas) e até uma indireta para Maria: “Às vezes é preciso perder para aprender a valorizar quem realmente importa”.
No fundo, eu queria que Maria visse. Queria que ela sentisse o mesmo vazio que eu sentia toda noite ao deitar ao lado de Nadja. Queria provar para ela — e para mim mesmo — que eu era capaz de seguir em frente.
O casamento foi simples, mas bonito. Nadja chorou ao entrar na igreja; minha mãe chorou também, mas por alívio. Eu? Eu só pensava se Maria estava vendo meus stories naquele momento.
Os primeiros meses foram suportáveis. Nadja fazia de tudo para me agradar: preparava meu prato favorito (feijão tropeiro), decorava a casa com quadros coloridos e até tentou aprender sobre futebol só para me acompanhar nos jogos do Cruzeiro. Mas nada preenchia o buraco dentro de mim.
As brigas começaram pequenas: toalha molhada na cama, contas atrasadas, ciúmes dos amigos antigos. Mas logo cresceram. Nadja sentia minha distância e tentava se aproximar à força.
— Você ainda pensa nela? — perguntou uma noite, com os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Não — menti olhando para o teto.
Ela sabia que era mentira.
Minha irmã percebeu rápido demais:
— Olguer, você não pode usar a Nadja pra curar sua dor. Isso é cruel.
— E o que você quer que eu faça? Volte pra Maria? Ela já seguiu a vida dela!
— Mas você não seguiu a sua…
Um dia, encontrei Maria por acaso na fila da padaria. Ela estava diferente: mais magra, olhar cansado. Trocamos poucas palavras; ela perguntou se eu estava feliz.
— Estou casado agora — respondi seco.
Ela sorriu triste:
— Espero que seja verdade.
Voltei pra casa arrasado. Nadja percebeu na hora:
— Você viu ela hoje?
Não respondi. Ela chorou a noite inteira no banheiro.
O tempo passou e a rotina virou prisão. Eu acordava cedo, ia pro trabalho novo numa empresa de tecnologia no centro e voltava pra casa sem vontade de conversar. Nadja tentava manter as aparências nas redes sociais: fotos sorrindo, legendas otimistas. Mas dentro de casa éramos dois estranhos dividindo o mesmo teto.
Minha mãe começou a perceber:
— Filho, casamento não é castigo nem prêmio pra ninguém. Se você não ama essa menina, liberta ela e se liberta também.
Mas eu tinha medo do escândalo familiar, do julgamento dos vizinhos e dos amigos da igreja.
Numa noite chuvosa de sexta-feira, Nadja explodiu:
— Eu não aguento mais! Eu te amo tanto e você me trata como se eu fosse invisível!
— Eu nunca pedi pra você me amar desse jeito! — gritei de volta.
Ela jogou uma xícara na parede e saiu correndo pela rua molhada.
Fiquei ali parado olhando os cacos espalhados pelo chão da cozinha. Era isso que restou do meu plano de vingança: cacos e dor.
No sábado seguinte, sentei com Nadja na sala e falei tudo:
— Me perdoa por ter te usado pra tentar esquecer outra pessoa. Você merece alguém inteiro, não um homem quebrado como eu.
Ela chorou baixinho e só disse:
— Eu só queria ser suficiente pra você…
Nos separamos pouco depois disso. Minha família ficou dividida: minha mãe aliviada por ver o sofrimento acabar; meu pai preocupado com minha solidão; minha irmã tentando me convencer a procurar terapia.
Hoje moro sozinho num apartamento pequeno no bairro Santa Tereza. Voltei a pintar quadros — algo que aprendi com Maria — e tento reconstruir minha vida aos poucos. Às vezes vejo Nadja nas redes sociais: ela parece feliz com outro rapaz, alguém que realmente a valoriza.
Maria? Nunca mais falei com ela. Ouvi dizer que se mudou pra São Paulo e abriu um ateliê próprio. Fico feliz por ela ter seguido em frente.
Às vezes me pergunto: valeu a pena tentar curar uma dor causando outra? Será que algum dia vou conseguir me perdoar por ter destruído dois corações só pra provar um ponto?
E vocês? Já fizeram algo por vingança e depois se arrependeram? Como seguir em frente depois de machucar quem só queria te amar?