Você Vai Me Esperar?
— Você vai me esperar? — perguntei, quase sussurrando, enquanto segurava o telefone com as mãos trêmulas. Do outro lado, silêncio. O tipo de silêncio que pesa mais do que qualquer resposta.
Aos quarenta e oito anos, nunca imaginei que estaria de novo nesse lugar: sozinha, encarando meu próprio reflexo no espelho do banheiro apertado do meu apartamento em Osasco. O tempo passou tão rápido. Lembro do dia em que conheci o Marcelo na faculdade, dos sonhos que a gente tinha, das promessas feitas debaixo da chuva fina na porta do cinema. “A gente vai ser feliz pra sempre”, ele dizia, e eu acreditava. Como não acreditar?
Agora, tudo que vejo são as olheiras fundas, os cabelos grisalhos que insistem em aparecer mesmo depois da tintura barata comprada na farmácia da esquina. Viro o rosto de um lado pro outro, tentando encontrar algum traço daquela menina cheia de esperança. Só encontro cansaço.
— Mãe, cadê meu uniforme? — grita a Luiza do quarto, interrompendo meus devaneios.
— Tá no varal! Pega lá, filha! — respondo, tentando disfarçar a voz embargada.
Luiza tem dezessete anos e carrega nos olhos a mesma inquietação que eu tinha na idade dela. Só que ela não percebe o quanto isso pode machucar. Desde que o pai dela foi embora, tudo ficou mais difícil. O dinheiro apertou, as contas se acumularam na gaveta da cozinha, e eu precisei aprender a ser forte por nós duas.
Mas tem dias em que a força falta. Como hoje.
O telefone vibra de novo. Mensagem do Marcelo: “Desculpa, não posso prometer nada.” Sinto um nó na garganta. Ele reapareceu há dois meses, depois de anos sumido, dizendo que queria tentar de novo. Eu quis acreditar. Quis tanto.
No fundo, sei que não é só sobre ele. É sobre mim. Sobre o medo de envelhecer sozinha, de não ser mais desejada, de não ter mais sonhos pra sonhar.
No trabalho, as coisas também não vão bem. Sou caixa num supermercado há quase vinte anos. O gerente novo, o Rafael, vive pegando no meu pé por qualquer coisa: “Dona Alice, agiliza aí! O cliente não pode esperar!” Como se eu não soubesse disso. Como se eu não tivesse passado a vida inteira esperando: por um amor, por reconhecimento, por um pouco de paz.
Na semana passada, precisei sair mais cedo porque a Luiza teve uma crise de ansiedade antes da prova do Enem. O Rafael fez cara feia, mas não disse nada. No dia seguinte, me chamou na salinha dos fundos:
— Dona Alice, tá difícil pra todo mundo. Se continuar assim, vou ter que cortar horas.
Saí de lá com vontade de chorar, mas segurei firme. Não posso me dar ao luxo de desmoronar.
À noite, depois que Luiza dorme, fico olhando as fotos antigas guardadas numa caixa de sapato. Eu e minha mãe na praia de Santos; eu e Marcelo no nosso primeiro Natal juntos; Luiza ainda bebê no colo dele. Sinto saudade de tudo que fui e medo de tudo que posso deixar de ser.
Minha mãe sempre dizia: “A gente precisa se amar como é.” Mas como amar essa mulher cansada e cheia de cicatrizes? Como aceitar os sonhos desfeitos e os amores inacabados?
Outro dia, encontrei a Dona Cida no ponto de ônibus. Ela sempre foi amiga da minha mãe e nunca teve papas na língua:
— Alice, você precisa sair mais! Vai num forró comigo sábado?
Dei uma risada sem graça:
— Ah, Dona Cida… Não tenho mais idade pra isso não.
Ela me olhou firme:
— Idade? Quem disse? Você tá viva, menina! Vai esperar o quê?
Fiquei pensando nisso o resto do dia. Será que ainda dá tempo pra mim?
No domingo seguinte, tomei coragem e fui ao forró com ela. No começo fiquei encostada na parede, morrendo de vergonha. Mas quando começou a tocar “Evidências”, um senhor simpático chamado Seu Jorge me tirou pra dançar.
— Faz tempo que não danço assim — confessei.
— Então aproveita! — ele respondeu com um sorriso largo.
Por alguns minutos esqueci das contas, dos problemas no trabalho, das mensagens não respondidas do Marcelo. Só existia a música e aquele abraço apertado.
Quando voltei pra casa naquela noite, Luiza estava acordada me esperando:
— Onde você tava?
— Fui dançar um pouco — respondi sem jeito.
Ela sorriu:
— Que bom, mãe. Você merece ser feliz também.
Chorei baixinho no banho depois disso. Pela primeira vez em muito tempo senti esperança.
Os dias continuam difíceis. O dinheiro ainda falta, o trabalho ainda pesa. Marcelo sumiu de novo — talvez pra sempre dessa vez. Mas algo mudou dentro de mim.
Outro dia me olhei no espelho e vi as mesmas rugas e olheiras de sempre. Mas também vi coragem. Coragem pra recomeçar aos quarenta e oito anos; coragem pra aceitar que nem todos os sonhos se realizam; coragem pra me amar como sou.
Hoje escrevo essa história porque sei que tem muita mulher como eu por aí: cansada, cheia de dúvidas e medos, mas também cheia de força e vontade de viver.
Será que ainda dá tempo pra gente ser feliz? Será que conseguimos nos amar apesar das marcas do tempo? Eu quero acreditar que sim.